A perícia criminal da Polícia Federal concluiu que não há vestígios de cocaína ou de qualquer outro entorpecente na carga de 260 toneladas de aroeira retida em junho durante a Operação Timber Shield. O material fora interceptado pela Receita Federal com apoio do Exército nas cidades de Corumbá (MS) e Cáceres (MT) sob suspeita de ocultar droga líquida impregnada na madeira.
Quando a apreensão foi anunciada, fiscais da Receita estimaram que entre 20 e 50 toneladas de cocaína poderiam ter sido incorporadas às toras, hipótese que levaria a “maior apreensão de drogas da história” no país. A avaliação inicial baseou-se em indícios visuais e na possibilidade, aventada pelos agentes, de uso de uma técnica de camuflagem capaz de fazer a madeira absorver o entorpecente em estado líquido.
Após a coleta de amostras e a realização de testes em campo, todos os exames apontaram resultado negativo para substâncias ilícitas. A perícia empregou cães farejadores do 3º Batalhão de Operações Ribeirinhas da Marinha, testes químicos preliminares — como o reagente Scott — e análises por espectrômetro a laser ainda no local da vistoria. Nenhum desses procedimentos indicou presença de cocaína.
Fragmentos, lascas e serragem foram removidos de peças aleatórias da carga com apoio de bombeiros e militares que operaram motosserras. Parte desse material permaneceu no Porto Seco de Corumbá para verificação imediata; outra parte foi lacrada e remetida ao Instituto Nacional de Criminalística, em Brasília, para análise laboratorial detalhada. O laudo definitivo confirmou a ausência de droga em todas as amostras encaminhadas.
Segundo o documento dos peritos, a própria natureza da aroeira inviabiliza o método de impregnação suspeitado. Considerada uma das madeiras mais densas, duras e resistentes do país, a espécie apresenta baixíssima porosidade e reduzida capacidade de absorção de umidade, características que funcionam como barreira física à penetração de soluções químicas. Esse perfil, afirmam os especialistas, torna “praticamente impossível” que grandes volumes de cocaína líquida se fixem nas fibras internas do tronco.
A operação havia mobilizado diversas forças. Além da Receita Federal e da Polícia Federal, participaram militares do Exército destacados para a Operação Ágata, voltada ao combate de ilícitos na faixa de fronteira. A atuação conjunta culminou no bloqueio de depósitos de madeira e em barreiras montadas em vias de escoamento próximas ao território boliviano, ponto frequentemente apontado como rota de entorpecentes para o Brasil.
Com a divulgação do laudo pericial, a suspeita de tráfico foi descartada, mas a carga segue retida para apuração de eventuais infrações ambientais e tributárias. A origem da aroeira, a documentação de transporte e a regularidade fiscal dos proprietários continuam sob análise da Receita Federal e de órgãos estaduais de meio ambiente.

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A Receita, que classificara o caso como “reviravolta na estratégia do crime organizado”, informou que acata o resultado pericial e manterá as investigações em outras frentes. A Polícia Federal reforçou que a conclusão técnica encerra a linha de inquérito voltada ao tráfico de drogas, mas eventuais responsabilidades administrativas ou penais relacionadas à exploração ou comercialização ilegal de madeira poderão ser examinadas em procedimento autônomo.
Na prática, o relatório final retira da ocorrência o status de maior apreensão de cocaína já registrada no país, posição que permanece com operações anteriores nas quais a substância foi efetivamente encontrada em grandes volumes. Autoridades envolvidas na Timber Shield afirmam que, apesar do desfecho, a troca de informações e a integração entre as forças de segurança permanecerão como legado operacional para fiscalizações futuras.
Até o momento, nenhum dos responsáveis pela carga foi indiciado por tráfico ou posse de entorpecentes. As empresas proprietárias do lote foram notificadas e deverão apresentar documentação complementar sobre a procedência da aroeira, espécie cuja extração é controlada em vários estados. Caso inconsistências sejam identificadas, multas administrativas e outras sanções ambientais podem ser aplicadas.
Com o laudo divulgado, o material seguirá armazenado sob custódia até a conclusão dos demais processos. Não há previsão oficial para liberação ou destinação definitiva das 260 toneladas de madeira.







