O Ministério da Saúde divulgou nota técnica que aponta risco elevado de reintrodução do sarampo no Brasil após a Copa do Mundo de 2026, prevista para ocorrer entre 11 de junho e 19 de julho nos Estados Unidos, no Canadá e no México. Os três países vivem surtos ativos da doença, situação que, somada ao intenso deslocamento de viajantes durante o torneio, pode favorecer a circulação do vírus em território brasileiro.
Cenário internacional e regional
De acordo com o documento, o sarampo segue amplamente distribuído em todos os continentes. Em 2025, foram confirmados 248.394 casos no mundo, indicando que a transmissão permanece como ameaça significativa à saúde pública. Nas Américas, a incidência aumentou de forma expressiva, principalmente nos países que receberão partidas do Mundial.
No Canadá, a epidemia de 2025 resultou em 5.062 casos e na perda da certificação de eliminação da doença. Em 2026, até o momento, foram registrados 124 casos, mantendo a circulação endêmica. O México notificou sete casos em 2024, 6.152 em 2025 e 1.190 apenas em janeiro de 2026. Já os Estados Unidos contabilizaram 2.144 casos em 2025 e 721 em janeiro de 2026. Em novembro de 2025, a Organização Pan-Americana da Saúde retirou da região o status de área livre de transmissão endêmica.
Situação atual no Brasil
O Brasil recuperou, em 2024, o status de país livre da circulação endêmica do sarampo. Mesmo assim, em 2025 foram notificados 3.952 casos suspeitos: 3.841 descartados, 46 em investigação e 38 confirmados. Desses, dez foram importados, 25 relacionados à importação e três com fonte de infecção desconhecida. Entre os confirmados, 94,7% não possuíam histórico vacinal.
Em 2026, até meados de março, o país registrou 232 casos suspeitos. Dois foram confirmados: um bebê de seis meses residente em São Paulo que viajara à Bolívia e uma mulher de 22 anos no Rio de Janeiro, com investigação em curso. Ambos não estavam vacinados.
Estratégia de prevenção
A nota ressalta que a vacinação e a vigilância sensível dos serviços de saúde são as principais barreiras contra a reintrodução do vírus. O Programa Nacional de Imunizações (PNI) oferece gratuitamente as vacinas tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola) e tetraviral (sarampo, caxumba, rubéola e varicela).
Em 2025, a cobertura da primeira dose atingiu 92,66%, próxima da meta de 95%. A homogeneidade — indicativo de uniformidade entre municípios — foi de 64,56%, com 3.596 localidades alcançando a meta. A segunda dose registrou 78,02% de cobertura e homogeneidade de 35,24%, com 1.963 municípios acima de 95%. Esses índices revelam bolsões de suscetíveis que podem facilitar a disseminação do vírus caso ocorram novas importações.
Recomendações para viajantes
O ministério orienta que todo viajante internacional verifique o cartão de vacinação e atualize as doses com antecedência:
- Crianças de 6 a 11 meses e 29 dias: dose zero, no mínimo 15 dias antes do embarque.
- Pessoas de 12 meses a 29 anos: esquema de duas doses; a primeira deve ser aplicada pelo menos 45 dias antes da viagem para possibilitar a segunda dose 30 dias depois e garantir proteção 15 dias após a última aplicação.
- Adultos de 30 a 59 anos: esquema de uma dose, a ser administrada ao menos 15 dias antes da partida.
- Se o prazo ideal não for possível, recomenda-se aplicar ao menos uma dose antes do embarque, inclusive no próprio dia da viagem.
Mobilização de estados e municípios
O Ministério da Saúde solicita que secretarias estaduais e municipais intensifiquem ações de vacinação, busquem ativamente indivíduos não imunizados e reforcem a investigação de casos suspeitos. A detecção precoce deve ser acompanhada de isolamento imediato do paciente, bloqueio vacinal em contatos e coleta de amostras para confirmação laboratorial.
Impacto de eventos de massa
Eventos internacionais de grande porte, como a Copa do Mundo, envolvem mobilidade populacional intensa e aumentam o risco de disseminação de doenças transmissíveis. Estima-se que milhões de pessoas circulem entre os 16 estádios distribuídos por cidades dos Estados Unidos, do México e do Canadá, incluindo turistas de diferentes continentes.
Com a confirmação de surtos nesses países e a presença de brasileiros não vacinados, o ministério classifica como alto o risco de ocorrência de novos casos e surtos de sarampo após o retorno dos torcedores ou com a chegada de estrangeiros ao Brasil.
Próximos passos
Para mitigar esse cenário, o governo federal reforça quatro eixos: ampliação da cobertura vacinal, vigilância epidemiológica sensível, capacidade laboratorial para diagnóstico rápido e comunicação eficaz com a população sobre sinais, sintomas e necessidade de busca imediata por atendimento médico em caso de febre acompanhada de manchas vermelhas no corpo.
A manutenção do status de eliminação do sarampo no país depende da adesão às recomendações, sobretudo no período que antecede e sucede a Copa do Mundo de 2026, quando o fluxo de viajantes deve atingir pico significativo.








