A Morada dos Baís, um dos principais ícones arquitetônicos de Campo Grande (MS), voltou a receber visitantes nesta terça-feira (14) depois de permanecer fechada por cerca de seis meses para abrigar parte das filmagens do longa-metragem “Lydia”. O edifício histórico retoma o atendimento no horário habitual: de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h, e aos sábados, das 8h às 12h. A reabertura devolve a moradores e turistas a possibilidade de conhecer o patrimônio, que combina valor arquitetônico e relevância cultural para a capital sul-mato-grossense.
A interrupção do acesso público começou em maio, quando a equipe de produção do filme transformou os ambientes internos e a fachada em um cenário de época. As intervenções cenográficas incluíram mobiliário, figurinos expostos e elementos decorativos compatíveis com as primeiras décadas do século XX, recriando locais associados à trajetória da artista plástica Lídia Baís, personagem central da narrativa cinematográfica. Durante o período de gravações, quem passava pela Avenida Afonso Pena pôde observar a movimentação de técnicos, atores e equipamentos em torno do prédio, que se tornou ponto de curiosidade para a população.
Erguida em 1918, a Morada dos Baís ostenta o título de primeira construção de alvenaria de Campo Grande. Projetada pelo engenheiro João Pandiá Calógeras, a residência se destacou na época pelo uso de telhas de ardósia importadas da Itália, diferenciais que simbolizavam o avanço urbano da então pequena vila. A família Baís ocupou o imóvel até 1938, ano da morte do patriarca Bernardo Franco Baís. Posteriormente, o endereço funcionou como Pensão Pimentel, exercendo papel importante no fluxo de viajantes que chegavam à cidade.
Em 1974, um incêndio comprometeu grande parte da estrutura original. Após passagens por diferentes usos comerciais, o prédio foi tombado como patrimônio histórico municipal em 1986, passo decisivo para garantir sua preservação. A restauração ocorreu nos anos seguintes e, em 1995, o espaço foi convertido em Centro de Informações Turísticas e Culturais. Na mesma época, recebeu o Museu Lídia Baís, dedicado a exibir e conservar o acervo da pintora. Desde 2016, a gestão está a cargo do Sesc Mato Grosso do Sul, responsável por uma programação regular de exposições, cursos, apresentações musicais e outras atividades culturais.
O longa “Lydia”, que motivou o fechamento temporário, entrou em produção neste ano com orçamento estimado em R$ 2,5 milhões. A obra é dirigida por Ricardo Câmara, com produção de Joel Pizzini e Juliana Domingos. Parte relevante das cenas foi filmada na própria Morada dos Baís e no Museu José Antônio Pereira, ambos locais historicamente vinculados à vida da artista. O projeto recebeu R$ 1 milhão por meio da Lei Paulo Gustavo e ainda busca novas fontes de financiamento para completar o investimento necessário.
O roteiro, assinado por Melina Dalboni e com codireção de Mariana Villas-Bôas, apresenta uma narrativa ficcional inspirada em fatos reais. O enredo aborda a produção artística de Lídia Baís, os conflitos pessoais que enfrentou e sua postura crítica diante do conservadorismo social do início do século passado. Segundo a equipe de produção, a intenção é evidenciar o pioneirismo da pintora, cuja obra dialoga com movimentos como o surrealismo e o expressionismo.

Imagem: Divulgação
O elenco reúne nomes de diferentes regiões do país. Compõem a lista Beatrice Sayd, Ney Matogrosso, Ana Brun, Alzira Espíndola, Breno Moroni, Gisele Sater, Bianca Machado, Duda Mamberti, Zahy Tentehar e Jessica Cauim, entre outros artistas locais. A escolha de atores de projeção nacional e regional tem o objetivo de valorizar talentos sul-mato-grossenses ao mesmo tempo em que amplia a visibilidade do filme no circuito brasileiro.
Lídia Baís nasceu em Campo Grande em 1900 e iniciou seus estudos formais de arte no Rio de Janeiro. Depois, aperfeiçoou a técnica na Europa, onde teve contato direto com tendências que marcaram a vanguarda do século XX. Embora tenha realizado apenas uma mostra individual em vida, em 1929, deixou um conjunto expressivo de pinturas, desenhos e experimentações que se tornaram referência para a arte de Mato Grosso do Sul e do Brasil.
Com a conclusão das gravações na Morada dos Baís, o prédio retoma o papel de polo cultural, fortalecendo o roteiro turístico do centro da capital. Ao mesmo tempo, a produção de “Lydia” avança para as próximas fases, que incluem filmagens em outros cenários, edição e finalização. A expectativa da equipe é lançar o longa nos cinemas após o término do calendário de captação de recursos e da pós-produção.
A reabertura também simboliza a continuidade das ações educativas desenvolvidas pelo Sesc MS, que utiliza o espaço para oficinas, palestras e visitas mediadas direcionadas a estudantes da rede pública e particular. Dessa forma, o edifício reúne simultaneamente as funções de preservar a memória local, fomentar a produção artística contemporânea e servir de cenário para obras audiovisuais que projetam a cultura regional para além das fronteiras do estado.







