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Mato Grosso do Sul mira agregação de valor e quer trocar imagem de celeiro por “supermercado do mundo”

O potencial de Mato Grosso do Sul para avançar na agroindustrialização e reduzir a dependência de commodities foi o tema central do segundo painel da 6ª edição do RCN Agro 2026 – Fórum LIDE Agro Expogrande, realizado na terça-feira (14) no Parque de Exposições Laucídio Coelho, em Campo Grande. O debate, conduzido pelo jornalista Fabiano Reis, reuniu representantes de empresas e entidades que analisaram o atual momento de diversificação da economia rural sul-mato-grossense.

Transformação da matriz econômica

Nos últimos dez anos, o estado converteu mais de 5 milhões de hectares de pastagens degradadas em áreas de cultivo. Esse processo permitiu duplicar a produção de grãos e, simultaneamente, abrir espaço para novas cadeias produtivas, como bioenergia e citricultura. De acordo com os participantes, esse movimento estrutural reflete uma estratégia voltada a elevar o valor agregado dos produtos locais, reduzindo a exportação de matéria-prima in natura.

O ex-secretário de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação (Semadesc), Jaime Verruck, destacou que a meta é inverter o perfil de vendas externas. “Queremos deixar de figurar como quarto maior exportador de soja e quinto de milho porque, em vez de embarcar grãos, pretendemos processá-los aqui”, afirmou. Para ele, a missão de “sair do celeiro do mundo para ser o supermercado do mundo” passa por investimentos em agroindústrias que processem a produção dentro das fronteiras estaduais.

Avanço da citricultura

Entre as atividades emergentes, a cadeia de citros recebeu destaque. A CEO do Grupo Junqueira Rodas, Sarita Junqueira, explicou os fatores que levaram a companhia a instalar pomares no estado há dois anos. Segundo ela, o Brasil responde pela maior parcela global de suco de laranja e, diante da expansão da demanda externa, o Mato Grosso do Sul reúne condições para se tornar o segundo maior produtor nacional da fruta.

A empresária atribuiu parte desse potencial à política estadual de “tolerância zero” ao greening, doença que afeta laranjais. O controle rigoroso, completou, reduz a necessidade de defensivos agrícolas, resultando em frutas consideradas mais saudáveis e com menor risco de rejeição em mercados exigentes. “Essa combinação de sanidade e qualidade abre portas para que o suco originado aqui alcance destinos que pagam prêmios por produtos sustentáveis”, afirmou.

Bioenergia como vetor de industrialização

O presidente da BioSul, Amaury Pekelman, lembrou que usinas sucroenergéticas instaladas no estado vêm ampliando a fabricação de biocombustíveis, especialmente etanol a partir de milho e cana-de-açúcar. Esse segmento, sublinhou, exemplifica a lógica de transformação de insumos agrícolas em derivados de maior valor, gerando emprego e arrecadação local. Na mesma linha, o CEO da Inpasa Brasil, Eder Lopes, citou a produção de etanol de milho como alternativa para absorver excedentes de safra e estabilizar o preço pago ao produtor.

Para além do combustível, as plantas industriais produzem farelo, óleo e geração de energia elétrica a partir da biomassa, reforçando o conceito de economia circular. “A diversificação garante que o estado não dependa de um único mercado e cria oportunidades em toda a cadeia, do campo às fábricas”, pontuou Lopes.

Carne com valor agregado

O diretor de Assuntos Estratégicos da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (ABIEC), Júlio Ramos, acrescentou que a pecuária de corte também passa por mudanças para aumentar a competitividade. Ele destacou iniciativas voltadas à rastreabilidade, bem-estar animal e redução de emissões, requisitos cada vez mais solicitados por importadores. Conforme Ramos, atender a esses padrões internacionais ajuda a elevar o preço recebido e consolida a reputação do estado como fornecedor confiável.

Infraestrutura e políticas públicas

Os debatedores apontaram ainda que a expansão da agroindústria depende de logística eficiente. Ferrovias, hidrovias e rodovias em implantação ou modernização foram citadas como essenciais para encurtar distâncias até portos e centros consumidores internos. Além disso, programas estaduais de incentivo fiscal e suporte técnico foram lembrados como fatores que impulsionam a instalação de novas plantas processadoras.

Verruck ressaltou que a diversificação “não acontece por acaso” e exige planejamento de longo prazo. “O governo estadual estabeleceu metas para atrair investimentos, promover pesquisa e capacitar mão de obra. O resultado começa a aparecer nos indicadores de produtividade e na chegada de empresas que enxergam uma plataforma de competitividade aqui”, afirmou.

Perspectivas

Ao final do painel, os participantes convergiram na avaliação de que Mato Grosso do Sul vive um ciclo de oportunidades ancorado em tecnologia, sustentabilidade e agregação de valor. O desafio, observaram, é manter a trajetória de crescimento, reforçando a industrialização sem perder eficiência no campo. Caso a estratégia seja bem-sucedida, o estado pretende consolidar-se não apenas como grande produtor, mas como fornecedor de alimentos e energias renováveis com alto grau de processamento, apto a disputar nichos premium nos mercados interno e externo.