A Polícia Federal reconstruiu uma sequência de ações realizadas no celular de Daniel Vorcaro, apreendido na Operação Compliance Zero, e concluiu que notas produzidas pelo banqueiro foram seguidas, em poucos segundos, pelo envio de mensagens a um número armazenado no aparelho como “Alexandre de Moraes BRASILIA”.
O achado está na Informação de Polícia Judiciária, colhida e elaborada a partir do iPhone apreendido durante a Operação Compliance Zero. A PF utilizou registros do próprio sistema operacional para estabelecer a ordem das ações realizadas no aparelho, conferindo maior consistência técnica do que uma simples busca por palavras em conversas.
A perícia identificou abertura do aplicativo Notas, alteração de textos, captura de tela, geração automática de arquivos temporários, fechamento do aplicativo, abertura do WhatsApp e posterior envio de mensagem, em rápida sucessão, com intervalos de poucos segundos entre captura e envio.
O número salvo na agenda, “Alexandre de Moraes BRASILIA”, foi verificado como destinatário das mensagens. A PF também encontrou registros de que Fábio Faria havia compartilhado esse mesmo número com Vorcaro em dezembro de 2023, e que o terminal aparecia associado a diferentes identificações, entre elas “Novo”, “STF TSE NOVO” e “Eu STF”.
Assim, a conclusão técnica da equipe foi objetiva: depois de fazer capturas das notas analisadas, Vorcaro enviava mensagens pelo WhatsApp ao contato registrado dessa forma. A perícia demonstra o fluxo entre aparelho, conteúdo e destinatário armazenado na agenda, mas não transforma automaticamente em verdade as informações escritas pelo próprio Vorcaro nas notas.
Uma das mensagens analisadas, modificada em 30 de outubro de 2025, menciona que Vorcaro teria recebido “informações informais” e “em confidência” de pessoas ligadas ao Banco Central, e que “G e os diretores” estariam sob forte pressão para adotar uma medida. O banqueiro também escreve que o Banco Central estaria sendo pressionado pela Polícia Federal e pelo Ministério Público, que, segundo ele, fariam algo contra Vorcaro. Ele indica a necessidade de “reforçar com Andrei e Paulo” para impedir que alguém “de baixo” fizesse algo contra ele, e afirma que enviaria os nomes de pessoas que estariam indo ao Banco Central e dizendo que alguma medida seria tomada em breve. A PF afirma que os nomes “podem indicar” Andrei Passos, diretor-geral da Polícia Federal, e Paulo Gonet, procurador-geral da República, mas não apresenta essa identificação como certeza absoluta.
O relatório da PF demonstra que textos foram manipulados no aparelho de Vorcaro e que mensagens foram enviadas imediatamente depois ao terminal salvo como “Alexandre de Moraes BRASILIA”, e que uma dessas notas faz referências a suposta pressão institucional e à necessidade de “reforçar com Andrei e Paulo”. No entanto, o documento não comprova que Alexandre de Moraes tenha atendido a qualquer solicitação descrita por Vorcaro, nem que Paulo Gonet ou Andrei Passos tenham agido para favorecer o banqueiro, nem a veracidade da informação de suposta pressão da PF e do Ministério Público sobre o Banco Central.
A Operação Compliance Zero apura fraudes na cessão de carteiras de crédito do Banco Master ao BRB, estimadas pela PF em aproximadamente R$ 12 bilhões. Os investigadores afirmam que as apurações relacionadas ao caso estão em estágio avançado, permanecendo pendentes análises bancárias e exames do material apreendido. A PF informou que oitivas já haviam começado e que havia previsão de conclusão dessa etapa nos 60 dias seguintes. O relatório alerta que a análise foi produzida em apenas 72 horas e pode não ter identificado todas as referências existentes no material.
Assim, a descoberta das notas não encerra o caso, mas abre a pergunta sobre até onde chegava a rede de interlocução que Vorcaro acreditava poder acionar quando seus negócios enfrentavam pressão regulatória.







