Quatro mortes registradas no fim de semana em Mato Grosso do Sul são investigadas pela Polícia Civil sob suspeita de terem relação com a frente fria que atingiu o Estado. Os óbitos ocorreram em Campo Grande e Dourados entre sábado (9) e domingo (10), período em que a combinação de temperaturas baixas e vento forte reduziu a sensação térmica a valores negativos em diferentes pontos das duas cidades.
De acordo com o meteorologista Natálio Abrahão, da Universidade Anhanguera-Uniderp, Campo Grande anotou 5,1 °C de temperatura mínima na madrugada de segunda-feira (11). Apesar do valor já consideravelmente baixo para a região, o efeito do vento fez a sensação térmica recuar para –3,1 °C. Na madrugada de domingo, a capital sul-mato-grossense também registrou sensação abaixo de zero, cenário que intensificou o alerta entre autoridades de segurança e saúde.
A primeira ocorrência foi comunicada na manhã de domingo, quando um homem de 58 anos foi encontrado sem vida dentro de uma casa abandonada na Vila Moreninha 3, em Campo Grande. Conforme boletim de ocorrência, ele apresentava sangramento na boca, mas não havia indícios aparentes de violência. Informações preliminares apontam que a vítima vivia em situação de vulnerabilidade social e era usuária de drogas. A perícia inicial não descartou morte por causas naturais, hipotermia ou overdose. O corpo foi encaminhado ao Instituto de Medicina e Odontologia Legal (Imol) para exame necroscópico.
Na mesma data, policiais foram acionados para averiguar o óbito de um homem de 63 anos encontrado em frente a um bar no bairro São Jorge da Lagoa, também na capital. Testemunhas relataram que ele era conhecido na região e possuía histórico de alcoolismo e uso de entorpecentes. O corpo não exibia marcas de agressão. Investigadores consideram que a exposição prolongada ao frio pode ter contribuído para o falecimento, hipótese que será confirmada ou descartada após laudo do Imol.
Outro caso em Campo Grande envolve um homem de 62 anos que havia desaparecido ao deixar a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Vila Almeida. O corpo, inicialmente sem identificação, foi localizado em área próxima e reconhecido posteriormente por um irmão no instituto médico-legal. Segundo registro policial, a vítima também tinha consumo excessivo de álcool referido em atendimentos anteriores. A equipe pericial, que não encontrou lesões externas, trabalha com linhas de investigação que incluem hipotermia e complicações de saúde pré-existentes.
Fora da capital, a Polícia Civil de Dourados investiga a morte de um homem de aproximadamente 50 anos localizada às margens da BR-163, nas proximidades do Pesqueiro Canoas. O corpo não apresentava sinal de agressão, e a avaliação técnica preliminar levantou como possibilidades hipotermia ou overdose. Familiares compareceram ao local e realizaram o reconhecimento da vítima, cujo histórico médico e social também será verificado para subsidiar o inquérito.
Todos os quatro registros foram classificados nos boletins de ocorrência como “morte decorrente de fato atípico”, procedimento adotado quando não há evidência imediata de crime violento, mas o óbito necessita de apuração. Os laudos necroscópicos deverão indicar a causa exata de cada morte, etapa considerada decisiva para confirmar ou afastar a relação direta com a onda de frio.
Segundo a Coordenadoria de Perícias, a exposição ao frio intenso por tempo prolongado pode provocar queda acentuada da temperatura corporal, situação que leva à hipotermia. O risco é maior entre pessoas em situação de rua, idosos, usuários de álcool ou drogas e indivíduos com doenças crônicas, pois esses grupos tendem a ter dificuldade de se proteger adequadamente das condições climáticas.
Durante o fim de semana, a Defesa Civil de Mato Grosso do Sul emitiu alertas para a população, recomendando abrigo em locais protegidos, reforço no agasalho e atenção especial a pessoas vulneráveis. Em Campo Grande, equipes de assistência social intensificaram rondas para oferecer acolhimento em centros municipais, mas não há confirmação de que as vítimas tenham recebido ou recusado auxílio.
As investigações continuam nas delegacias competentes em Campo Grande e Dourados. A Polícia Civil aguarda os laudos do Imol para concluir se as mortes foram causadas por hipotermia, complicações de saúde preexistentes, uso de substâncias ou outro fator. Até a conclusão dos exames, não há indícios de envolvimento de terceiros nem de crime violento nos quatro casos.









