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Setor teme queda de até 90% nas exportações se tilápia for classificada como espécie invasora

A cadeia aquícola brasileira acompanha com apreensão a reunião da Comissão Nacional de Biodiversidade (Conabio), marcada para 27 de maio, que analisará proposta de inclusão da tilápia na lista de espécies exóticas invasoras. Caso o enquadramento seja aprovado, representantes do setor alertam para a possibilidade de perdas expressivas no comércio internacional, cenário que poderia atingir toda a estrutura produtiva da piscicultura nacional.

Dados compilados pela entidade setorial PEIXE BR indicam que o Brasil exporta atualmente cerca de US$ 35 milhões em tilápia por ano. Desse total, aproximadamente 85% têm como destino os Estados Unidos, mercado considerado estratégico pela estabilidade da demanda e pelos preços praticados. Uma eventual mudança de classificação, avaliam os técnicos, seria interpretada como sinal de risco ambiental, abrindo espaço para a adoção de barreiras sanitárias e restrições comerciais.

O estudo elaborado pela associação compara o possível cenário brasileiro com o caso da carpa asiática. Nos Estados Unidos, a espécie passou a ser considerada invasora em 2010, o que teria provocado queda acentuada nas importações do filé proveniente da China. A organização estima que, se dinâmica semelhante se repetir, as remessas brasileiras de tilápia podem encolher até 90% em um período de seis meses, reduzindo a receita cambial do setor em mais de US$ 38 milhões.

De acordo com o levantamento, a classificação como exótica invasora costuma originar protocolos adicionais de fiscalização, exigência de certificações ambientais mais rigorosas e, em alguns casos, embargos temporários enquanto países importadores definem novos procedimentos de controle. Além do impacto direto na tilápia, os analistas apontam riscos indiretos para outras espécies cultivadas em cativeiro, que poderiam passar a ser submetidas a auditorias mais frequentes e custosas.

O Brasil ocupa posição de destaque no segmento de tilápia graças a condições favoráveis de clima, disponibilidade de água e investimentos em genética, ração e manejo. Segundo a PEIXE BR, a espécie representa cerca de 60% da produção de pescado de cultivo no país, movimentando milhares de empregos diretos e indiretos em frigoríficos, fábricas de insumos, laboratórios de reprodução e logística refrigerada.

Nesse contexto, o possível recuo das vendas externas preocupa produtores de diferentes estados, em especial aqueles que direcionaram estratégias de expansão ao mercado internacional. Um dos casos emblemáticos é Mato Grosso do Sul, que vem registrando trajetória ascendente na piscicultura. Informações do Sistema Famasul mostram que a unidade federativa saiu de 55 toneladas exportadas em 2023 para quase 2 mil toneladas em 2025, desempenho que colocou o estado na terceira posição no ranking nacional de exportadores de tilápia e gerou mais de US$ 10 milhões em receitas.

Empreendimentos instalados em municípios como Dourados, Três Lagoas e Campo Grande investiram em tanques-rede, sistemas de recirculação de água e ampliação de abatedouros para atender exigências de qualidade externa. Líderes locais afirmam que o retorno desses investimentos depende da manutenção de canais de venda sem entraves adicionais.

A possível reclassificação também mobiliza frigoríficos localizados em outras regiões produtoras, como Paraná e São Paulo, que concentram grande parte da industrialização. Empresas nesses estados destacam que a previsibilidade regulatória é fator decisivo para a assinatura de contratos de longo prazo com importadores, sobretudo nos Estados Unidos, onde cadeias de supermercados e distribuidores costumam firmar acordos com antecedência de até um ano.

Além das consequências para a balança comercial, o setor chama atenção para o impacto na geração de renda em comunidades rurais. Pequenos e médios produtores que atuam em regime de integração relatam preocupação com possíveis ajustes de preço pela indústria, caso o volume de compra seja reduzido por retração do mercado externo.

Com a data da votação na Conabio se aproximando, entidades representativas intensificam a interlocução com órgãos governamentais. A estratégia inclui a apresentação de estudos ambientais que apontam o baixo potencial invasivo da tilápia em determinadas bacias, bem como a importância socioeconômica da espécie para regiões de pouca alternativa agrícola.

Autoridades do Ministério da Pesca acompanham o debate, mas ainda não indicaram posicionamento oficial sobre a proposta. Técnicos reforçam que a decisão caberá à Conabio, colegiado responsável por formular políticas de conservação da biodiversidade e composto por representantes de diversos ministérios, instituições de pesquisa e sociedade civil.

Até que o veredito seja anunciado, produtores, indústrias e exportadores mantêm o planejamento em compasso de espera. O resultado da reunião, previsto para o final de maio, deverá balizar investimentos futuros e determinar os rumos da presença brasileira no mercado global de tilápia.

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