Falas sobre morte ou sobre não querer mais viver devem ser levadas a sério e são sinal para buscar ajuda, alerta Rafaela Perez, psicóloga do Hospital Universitário da Universidade Federal da Grande Dourados (HU-UFGD). A orientação faz parte de recomendações de especialistas da HU Brasil, rede de hospitais universitários federais, sobre os sinais de sofrimento emocional que indicam a hora de procurar atendimento profissional.
No mês do Dia Mundial da Saúde Mental, lembrado em 10 de outubro, os profissionais orientam familiares e amigos a perceber quando o sofrimento deixa de ser passageiro. Mudanças de comportamento, isolamento e crises persistentes estão entre os pontos de atenção.
Mitos sobre o suicídio
Para a psicóloga do HU-UFGD, um dos maiores mitos sobre saúde mental é a ideia de que quem quer se matar não avisa. Segundo ela, quando há falas relacionadas à morte ou quando a segurança da pessoa parece em risco, não se deve apenas esperar.
A psicóloga também contesta a crença de que perguntar sobre o assunto pode dar ideias a alguém. Na avaliação dela, abrir um espaço de conversa responsável e acolhedor permite que o sofrimento apareça e que a pessoa consiga ser ajudada.
Marcos Portela, psicólogo do Complexo do Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (CHC-UFPR), sugere como primeiro passo identificar se o sofrimento é agudo ou crônico. O agudo nasce de situações inevitáveis e compreensíveis, mas temporárias.
Entre os exemplos citados por ele estão a perda de alguém, uma doença repentina, derrotas no esporte, na eleição ou no amor e projetos frustrados, como engravidar, passar no vestibular ou no teste do Detran. O crônico resulta da intensificação de situações que não foram elaboradas e de condições psicopatológicas.
O psicólogo cita o viúvo que deixa de se relacionar com qualquer pessoa, o candidato a motorista que tem crises de pânico ao entrar no carro e a mãe que perdeu o filho e não sai de casa há anos. Nos dois casos, a postura de quem está perto deve ser a mesma: mais acolhimento e escuta do que fala.
Sinais de alerta
Se a conclusão for de que a pessoa precisa de ajuda profissional, tudo começa com uma pergunta: “Você quer ajuda?”. Em situações graves, a orientação é insistir. Uma recusa não encerra a conversa, e é preciso entender o que a pessoa está passando e por que ela não quer ajuda.
Betty Nesanelovicz, psiquiatra do Hospital Universitário dos Servidores do Estado da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Huse-Unirio), lista sinais que ajudam a avaliar a necessidade de ajuda profissional. Ela ressalta que nenhum deles deve ser interpretado isoladamente.
Podem pedir acolhimento e observação: mudança de comportamento por um período curto; crise de raiva passageira e coerente com uma situação de estresse; silêncio temporário; capacidade de interagir e pedir ajuda mesmo em sofrimento; capacidade de expressar o que sente de forma clara; manutenção da rotina e das atividades habituais; afirmação de que não tem vontade de morrer ou de matar; afirmação de que pensa em soluções para o sofrimento, mas precisa de ajuda.
Por outro lado, podem indicar a hora de intervir: alteração brusca de comportamento; abuso de substâncias; descontrole emocional persistente, mesmo quando o motivo não é grave; comportamento ou fala muito estranhos; comportamento parado, quase catatônico; falas relacionadas ao suicídio; automutilação; restrição alimentar e descuido com a higiene pessoal.
Também entram nessa lista: problema de saúde para o qual não se encontra diagnóstico clínico; impressão de ouvir vozes ou de estar sendo perseguido; medo de sair de casa; oscilação constante de humor e comportamento; comportamento de risco para si ou para outras pessoas; incapacidade de se acalmar em momentos de agitação, agressividade, raiva, paranoia, explosão ou ameaça.
Outros sinais incluem sumiços e viagens sem dar satisfação; falas sobre cometer crimes; perda de memória percebida apenas por outras pessoas; mentiras frequentes. A psiquiatra lembra que esses são só exemplos comuns e que os sinais psiquiátricos são numerosos e complexos.
Segundo ela, padrões emocionais e de comportamento variam de uma pessoa para outra e também ao longo da vida de uma mesma pessoa. Por isso, a recomendação é ter cautela ao interpretar os sinais de sofrimento emocional e considerar sempre a pessoa e a situação em que ela vive.
Para quem precisa de apoio, o CVV (Centro de Valorização da Vida) oferece ligação gratuita para o 188, 24 horas, ou chat em cvv.org.br. As Unidades Básicas de Saúde e CAPS (Centros de Atenção Psicossocial) também atendem pelo SUS. Em emergência, o Samu pode ser acionado pelo 192.







