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Receita Federal detecta uso irregular de créditos de PIS/Pasep e Cofins e notifica 2,9 mil empresas

Brasília — A Receita Federal concluiu uma ação de monitoramento que identificou a utilização indevida de créditos de PIS/Pasep e Cofins por 2.959 empresas em todo o território nacional. Batizada de “Caixa Rápido”, a operação examinou 55.153 pedidos de ressarcimento e compensação e constatou inconsistências que podem alcançar R$ 10 bilhões.

O órgão avaliou os requerimentos apresentados entre 2019 e 2023 por companhias de diferentes portes e setores. De acordo com o levantamento, parte dos créditos foi solicitada sem respaldo na legislação, lançando dúvidas sobre a legitimidade das compensações pretendidas. A Receita atribui parte do problema à atuação de consultorias tributárias que, segundo o fisco, orientam contribuintes a adotar condutas incompatíveis com as normas vigentes, tirando proveito da complexidade do sistema tributário e da dificuldade técnica de empresários para interpretar regras específicas.

Setor supermercadista concentra maior volume de inconsistências

Entre os segmentos analisados, o varejo supermercadista lidera o número de ocorrências. Esse ramo comercializa mercadorias submetidas a diferentes regimes de tributação, condição que, para a Receita, eleva o risco de erros na apuração dos créditos. Alimentos da cesta básica, por exemplo, possuem alíquota zero de PIS/Pasep e Cofins; portanto, não geram direito à recuperação de valores. Produtos já tributados em etapas anteriores, como bebidas, combustíveis e itens de higiene, se enquadram em situação semelhante. Nessas circunstâncias, não houve recolhimento do tributo na fase da cadeia analisada, o que inviabiliza a geração de crédito.

Consequências para as empresas

As inconsistências detectadas podem resultar em retificação de declarações, indeferimento de pedidos de ressarcimento e cobrança dos montantes compensados de forma irregular. Além disso, a legislação prevê aplicação de multas e lavratura de autos de infração quando a irregularidade é confirmada após o processo de fiscalização. A Receita destaca que as companhias notificadas terão oportunidade de corrigir as pendências e evitar penalidades mais severas.

Os avisos estão sendo enviados pelos Correios e trazem orientações específicas para cada contribuinte. Entre as ações recomendadas estão a revisão da escrituração fiscal e contábil, a retificação da EFD-Contribuições, a reapuração dos tributos, a adequação da DCTF e o cancelamento de solicitações de ressarcimento que não atendam aos requisitos legais.

Prazo para regularização

O fisco estabeleceu 30 de junho de 2026 como data-limite para que os contribuintes regularizem voluntariamente a situação. Até esse prazo, a Receita avalia que será possível analisar e processar as retificações sem comprometer o fluxo de demandas em curso. A iniciativa busca incentivar a conformidade espontânea, reduzindo litígios e reforçando a segurança jurídica na relação entre o Estado e o setor produtivo.

Caráter orientador da operação

De acordo com o órgão, a operação “Caixa Rápido” tem perfil prioritariamente preventivo. O objetivo é alertar empresas sobre equívocos recorrentes e reduzir a apresentação de créditos sem amparo legal. A Receita salienta que, após o período de autorregularização, eventuais inconsistências mantidas poderão resultar em procedimentos fiscais mais aprofundados.

A estratégia faz parte de um programa mais amplo de monitoramento de créditos tributários, no qual sistemas de análise de dados cruzam informações declaradas pelos contribuintes com registros de notas fiscais eletrônicas, comprovantes de pagamentos e bases administrativas diversas. O cruzamento permite identificar, com maior precisão, áreas de risco fiscal e contribuintes que apresentam padrão de comportamento incompatível com o enquadramento legal.

Impacto potencial

Com a identificação de inconsistências que podem atingir R$ 10 bilhões, a Receita pretende recuperar valores que teriam sido abatidos de forma irregular nos recolhimentos de contribuições sociais. A operação também busca evitar que novos créditos indevidos sejam pleiteados, preservando a arrecadação e a igualdade competitiva entre empresas que cumprem e as que descumprem as obrigações.

Embora o setor supermercadista concentre a maior parte das divergências, o fisco destaca que as autuações podem alcançar companhias de ramos variados, como combustíveis, bebidas e higiene pessoal, todos suscetíveis a erros semelhantes. A Receita reforça a importância de que contadores e departamentos fiscais revisem rotinas de apuração, buscando respaldo técnico rigoroso antes de submeter créditos à compensação ou ressarcimento.

Até o encerramento do prazo definido, o órgão continuará encaminhando notificações, promovendo seminários virtuais e divulgando orientações técnicas para esclarecer dúvidas. Empresas que regularizarem espontaneamente as informações poderão se beneficiar de reduções previstas na legislação ou evitar multas, conforme o estágio de cada processo. Caso a retificação não ocorra, as inconsistências serão automaticamente convertidas em autuação, com atualização de juros e aplicação de penalidades cabíveis.