Bonito, destino turístico de Mato Grosso do Sul conhecido pelos rios transparentes, passou a chamar atenção também por um movimento de gestão de resíduos que tem micro e pequenos negócios na linha de frente. O principal exemplo é o Restaurante Bacuri, inaugurado pelo chef Sylvio Trujillo, que acaba de se tornar o primeiro empreendimento do estado — e o 12º do país — a conquistar a certificação internacional Lixo Zero, concedida somente a estabelecimentos que desviam mais de 90% do lixo gerado da rota dos aterros sanitários.
Estrutura enxuta, meta ambiciosa
Instalado em um terreno de 500 m², dos quais 450 m² são ocupados pela operação, o Bacuri enfrentou o desafio de organizar a triagem sem dispor de área para uma segunda conferência dos descartes. Nos primeiros meses, a produção chegava a 12 a 15 sacos de cem litros por noite, situação que provocava escorrimento de chorume na calçada. Para alcançar o novo padrão, toda a equipe passou por treinamento intensivo e precisou separar corretamente cada resíduo ainda na rotina de atendimento, sem margem para retrabalho.
Tecnologia e rastreabilidade
A estratégia de virada foi desenhada pela Ciclo Azul, startup criada em Bonito a partir do programa estadual de inovação Centelha. A empresa fornece recipientes individualizados com QR Code, o que permite registrar via aplicativo, pesar e fotografar cada material coletado. Esse monitoramento diário gera informações que orientam melhorias e comprovam a destinação adequada. Hoje, a Ciclo Azul recicla mais de 30 toneladas de resíduos orgânicos por mês no Viveiro Municipal.
O composto resultante passa por aperfeiçoamento tecnológico em parceria com a Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) e com a Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii). O adubo é utilizado na produção de cerca de 10 mil mudas florestais destinadas à arborização urbana e a projetos de restauração, fechando o ciclo que começa nas mesas do restaurante.
Abastecimento local e economia circular
Além da questão dos resíduos, o Bacuri trabalha com insumos adquiridos majoritariamente em um raio de até 150 quilômetros. A decisão reforça a economia de assentamentos rurais e pequenas propriedades da região, mantendo aproximadamente 90% das compras dentro desse limite geográfico. O modelo reduz custos logísticos, garante frescor aos ingredientes e fortalece os vínculos produtivos do território.
Impacto na comunidade criativa
A lógica de desperdício zero extrapolou as cozinhas e alcançou outros setores. Artesãos locais passaram a transformar materiais descartados em insumos de valor. Um exemplo é a costureira Erondina Peralta, que recolhe calças jeans usadas, banners de eventos e tecidos de sombrinhas danificadas para fabricar bolsas e mochilas. A oferta constante desses materiais estimula a criação de novos produtos, gera renda e diminui ainda mais o volume encaminhado ao lixo comum.
Suporte técnico e consultorias
Para estruturar todo o processo até alcançar o selo Lixo Zero, o restaurante recorreu a mais de sete consultorias do programa Sebraetec. O Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) oferece orientação em áreas como layout de cozinha, gestão de resíduos, adequação sanitária e controle financeiro. Segundo a diretora técnica do Sebrae/MS, Sandra Amarilha, esse suporte visa garantir que pequenos empreendimentos tenham acesso a ferramentas de inovação e mantenham competitividade no mercado turístico, que demanda atualização constante.
Vantagens econômicas diretas
O ganho ambiental resultou em benefício financeiro inédito no município: com 91% dos resíduos desviados de aterros, o Bacuri tornou-se o único comércio de Bonito isento da taxa municipal de coleta de lixo. A economia na conta mensal soma-se à redução de custos obtida pela compostagem e pela venda de recicláveis, reforçando a percepção de que práticas sustentáveis podem ser lucrativas.
Bonito como laboratório de bioeconomia
O conjunto de iniciativas evidencia a maturidade do trade turístico local, que passa a enxergar responsabilidade socioambiental como estratégia de produtividade e diferenciação. A combinação de logística reversa, rastreabilidade digital e capacitação profissional mostra que mesmo operações de pequeno porte podem cumprir metas internacionais rigorosas e, ao mesmo tempo, melhorar resultados financeiros.
Ao figurar na lista restrita de restaurantes brasileiros com certificação Lixo Zero, o Bacuri eleva o patamar de exigência no destino e inspira outros empreendedores. A tendência é que o modelo se consolide como ativo competitivo, atraindo visitantes interessados em turismo de baixo impacto e estimulando a expansão da cadeia de serviços sustentáveis em Bonito.









