A Prefeitura de Três Lagoas, no leste de Mato Grosso do Sul, plantou 111 mudas ao longo do parque linear da avenida Rosário Congro, ação realizada para marcar o sábado (20) e reforçar a intenção do município de expandir a cobertura vegetal em vias e espaços públicos. O anúncio reaquece a discussão sobre a falta de árvores na região central da cidade, área historicamente deficiente em sombreamento e proteção térmica.
Até as décadas de 1960 e 1970, a zona central de Três Lagoas mantinha alamedas cobertas por exemplares da espécie popularmente conhecida como “sete copas”. Com copas amplas, esses exemplares ofereciam sombra, mas suas raízes danificavam calçadas, e a densa folhagem exigia limpeza frequente. Comerciantes da época alegavam prejuízos à visibilidade das vitrines e, por conta própria, retiraram as árvores sem reposição. Naquele período não havia legislação municipal que impusesse o replantio, nem cultura de preservação ambiental consolidada. Esse histórico contribuiu para a redução drástica do número de árvores no centro até os dias atuais.
O novo plantio ocorre em um momento em que temas como sustentabilidade, qualidade do ar e adaptação às mudanças climáticas são pauta constante em centros urbanos brasileiros. Estudos apontam que áreas verdes reduzem a temperatura ambiente, filtram poluentes, aumentam a umidade e melhoram a saúde pública ao oferecer espaços de convivência. A Secretaria Municipal de Meio Ambiente classifica a cobertura vegetal como infraestrutura verde estratégica para a cidade, sobretudo diante da presença de grandes indústrias de celulose instaladas no município.
Por determinação de licenciamentos ambientais, essas indústrias mantêm estações de monitoramento atmosférico distribuídas em vários pontos do território. Entretanto, os relatórios completos com índices diários de material particulado, gases e demais parâmetros não são disponibilizados em plataformas de acesso livre. Entidades da sociedade civil reivindicam transparência, alegando que a divulgação frequente permitiria avaliar eventuais interferências da atividade industrial na qualidade do ar e, consequentemente, na saúde da população. A ampliação da arborização é apontada por especialistas como ferramenta adicional para mitigar possíveis impactos.
O Executivo municipal afirma que o plantio de mudas na avenida Rosário Congro representa apenas a primeira etapa de um cronograma que prevê intervenções em bairros, praças e parques ao longo do ano. Técnicos estudam espécies adequadas ao clima local, priorizando árvores de porte médio a grande, com raízes menos agressivas a calçadas e fiação. Há indicação do uso de ipê, oiti, pata-de-vaca e pau-brasil, entre outras espécies nativas e adaptadas, em substituição às antigas “sete copas”.
Além da escolha das espécies, a administração pretende envolver moradores, comerciantes e instituições de ensino nas próximas etapas. A participação popular consiste principalmente em irrigar as mudas recém-plantadas durante os primeiros meses, proteger os tutores de madeira contra vandalismo e comunicar a prefeitura caso alguma árvore apresente sinais de pragas ou não se desenvolva. A proposta é que o acompanhamento periódico diminua a perda de plantas e reduza custos de manutenção.
O município também estuda a criação de um programa permanente de reposição: sempre que uma árvore for retirada, outra deverá ser plantada no mesmo local ou em área próxima, medida alinhada às práticas adotadas em capitais brasileiras que possuem regulamentos específicos de compensação ambiental. O objetivo é evitar que o déficit de cobertura verde, registrado nas últimas décadas, volte a ocorrer.
Organizações sociais ligadas ao meio ambiente defendem metas quantitativas para o plantio, sugerindo que Três Lagoas fixe um índice mínimo de árvores por habitante e divulgue relatórios anuais sobre avanços. Segundo ambientalistas, a cidade dispõe de espaços suficientes para receber milhares de novas mudas, especialmente em canteiros centrais, áreas institucionais e lotes públicos ociosos.
Enquanto o poder público estuda normas adicionais, especialistas recomendam a adoção de sistemas de inventário digital, capazes de registrar espécie, idade e estado fitossanitário de cada árvore. A ferramenta facilitaria decisões de poda, supressão ou transplante, além de oferecer dados confiáveis para estudos sobre microclima urbano.
A ampliação da arborização guarda relação direta com metas nacionais e internacionais de combate ao aquecimento global e de promoção de cidades resilientes. Embora Três Lagoas apresente crescimento econômico impulsionado pelo setor de celulose, autoridades locais reconhecem que os indicadores de qualidade ambiental precisam avançar no mesmo ritmo. O plantio das 111 mudas marca um passo inicial, mas o êxito da política depende de continuidade, fiscalização e ampla colaboração entre governo, iniciativa privada e moradores.
Se o cronograma for mantido e a reposição ocorrer de forma sistemática, técnicos estimam que, em poucos anos, a cidade possa figurar em levantamentos que avaliam a densidade arbórea urbana no país. Até lá, desafios como transparência nos dados de poluição, educação ambiental e revisão do mobiliário urbano permanecem no centro do debate.









