Search

Médicos de Mato Grosso do Sul enfrentam atrasos salariais, sobrecarga e violência nas unidades de saúde

O cenário de trabalho dos médicos em Mato Grosso do Sul tem se deteriorado, segundo avaliação do Sindicato dos Médicos do Estado (SinMed/MS). A entidade relata atrasos recorrentes no pagamento de salários e honorários, jornadas extenuantes, falta de estrutura física e aumento da violência contra profissionais dentro das unidades de saúde. A situação, que se agravou ao longo de 2025, pode comprometer a prestação de serviços na rede pública, especialmente na Santa Casa de Campo Grande, principal hospital de alta complexidade do Estado.

De acordo com o SinMed/MS, médicos contratados sob o regime da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) aguardam o pagamento do 13º salário, enquanto profissionais contratados como pessoa jurídica acumulam até seis meses sem receber. O presidente do sindicato, Marcelo Santana, classifica o problema como urgente e alerta para o risco de paralisações caso a Santa Casa não regularize os repasses.

A Santa Casa concentra serviços estratégicos e, em alguns casos, exclusivos em Mato Grosso do Sul, como cirurgia cardíaca pediátrica, transplante renal, urologia e nefrologia. A instabilidade financeira da instituição é apontada pelo sindicato como ameaça direta à continuidade dessas especialidades, consideradas essenciais para o atendimento de alta complexidade no Estado.

Para tentar resolver os atrasos, sindicato, hospital e Ministério Público firmaram acordo extrajudicial. Mesmo assim, o SinMed/MS manteve as ações judiciais existentes. A entidade sustenta que o histórico de descumprimento de compromissos anteriores gera insegurança entre os profissionais, sobretudo para quem atua como pessoa jurídica e não conta com as garantias trabalhistas previstas na CLT.

Além das questões financeiras, o sindicato critica a regulação de vagas hospitalares. Segundo a entidade, a falta de leitos tem obrigado a priorizar pacientes em um contexto de “escassez extrema”, colocando em risco o acesso a tratamentos e cirurgias urgentes. A organização defende revisão do modelo de regulação e investimentos que ampliem a capacidade de internação.

Outro ponto de preocupação é a violência contra profissionais da saúde. O SinMed/MS registra aumento de episódios que vão de ameaças verbais a agressões físicas, atingindo especialmente mulheres, maioria atual da categoria. O sindicato relaciona as ocorrências à superlotação de unidades, falta de insumos e frustração de pacientes e familiares diante de atendimentos mais lentos ou interrompidos.

O crescimento populacional do Estado, impulsionado por projetos logísticos como a Rota Bioceânica e pela expansão industrial, também pressiona a rede hospitalar. De acordo com o sindicato, Campo Grande praticamente não ganhou novos leitos nas últimas décadas, o que agrava gargalos em pronto-socorros e enfermarias. A entidade defende planejamento de longo prazo que inclua reforço da atenção básica e, paralelamente, expansão da oferta hospitalar.

Os problemas se agravam com a falta de investimentos em tecnologia e infraestrutura. O SinMed/MS destaca que equipes médicas do Sistema Único de Saúde (SUS) utilizam equipamentos defasados e lidam com estoques reduzidos de medicamentos e materiais. Mesmo diante das limitações, os profissionais mantêm atendimento de alta demanda, condição que eleva o nível de estresse e compromete a qualidade do serviço.

Para reverter o quadro, o sindicato propõe um pacote de medidas: planejamento financeiro transparente nas unidades públicas e filantrópicas, valorização da carreira médica, revisão dos modelos de contratação, atualização periódica de equipamentos e ampliação de leitos. A entidade também sugere programas de segurança específicos para hospitais e postos de saúde, com foco na prevenção de agressões.

Em paralelo, a categoria solicita a implementação de um calendário de pagamentos que garanta previsibilidade a todos os vínculos, além de políticas de incentivo para fixar médicos em regiões mais afastadas de Campo Grande. O sindicato argumenta que a oferta de especialidades no interior do Estado reduziria a pressão sobre a capital e melhoraria o acesso da população aos serviços de saúde.

Enquanto aguarda soluções definitivas, o SinMed/MS segue monitorando atrasos salariais e acionando a Justiça quando necessário. A entidade afirma que só encerrará ações judiciais após comprovação do pagamento integral do 13º salário e dos honorários pendentes. Para os médicos, cumprir a remuneração em dia é condição básica para assegurar a continuidade do atendimento e evitar um possível colapso da rede estadual de saúde.