O crescimento projetado para a avicultura brasileira em 2026 pode ser comprometido se novos focos de influenza aviária não forem contidos de forma rápida e eficaz. A avaliação é de pesquisadores do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da Universidade de São Paulo (Cepea/Esalq/USP), que identificam a doença como o principal risco sanitário para o setor, apesar das perspectivas favoráveis de produção e exportações.
De acordo com estimativas do Cepea, a produção nacional de carne de frango deve chegar a aproximadamente 14,73 milhões de toneladas em 2026, volume 3,8 % superior ao registrado em 2025. O instituto também projeta avanço de 2,4 % nos embarques externos, sustentado pela demanda de mercados internacionais tradicionalmente importadores do produto brasileiro. Esses números, porém, estão diretamente vinculados ao êxito das estratégias de prevenção e controle da influenza aviária, em especial da cepa H5N1, considerada altamente patogênica.
O alerta ocorre em um contexto de maior vigilância sanitária no país. Em maio de 2025, o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) confirmou um surto de H5N1 em uma granja comercial localizada no município de Montenegro, no Rio Grande do Sul, estado que figura entre os maiores polos da avicultura nacional. A ocorrência motivou a adoção imediata de medidas de contenção e levou diversos parceiros internacionais a suspender temporariamente a compra de carne de frango brasileira.
China, México e Japão, entre outros mercados relevantes, interromperam as importações após a notificação oficial do governo brasileiro. Parte dessas restrições começou a ser flexibilizada posteriormente, à medida que os importadores avaliaram as ações sanitárias implementadas e o encerramento do foco inicial. Mesmo com o recuo de algumas barreiras, o episódio expôs a vulnerabilidade do comércio exterior da proteína em situações de emergência zoossanitária.
Para o Cepea, o impacto imediato sobre as exportações reforça a necessidade de manter protocolos rígidos de biossegurança em toda a cadeia produtiva. A instituição destaca que surtos pontuais, ainda que rapidamente eliminados, podem gerar efeitos prolongados sobre preços, contratos e logística, além de comprometer a confiança do comprador internacional.
Em Mato Grosso do Sul, estado que se consolida como um dos principais produtores do Centro-Oeste, a influenza aviária é acompanhada com atenção redobrada. A região combina expansão de granjas comerciais com rotas migratórias de aves silvestres, consideradas reservatórios naturais do vírus. Até o momento, não houve registro de focos em instalações industriais locais, mas órgãos de defesa agropecuária mantêm inspeções frequentes, barreiras sanitárias nas entradas das propriedades e monitoramento clínico contínuo dos plantéis.
As medidas adotadas incluem o controle do acesso de veículos, desinfecção de equipamentos, uso de vestimentas exclusivas na área de produção e orientação constante a funcionários sobre boas práticas de manejo. Técnicos estaduais acrescentam que a notificação imediata de mortalidade atípica em aves continua sendo um dos pilares da estratégia de precaução.
Representantes de associações de produtores do estado ressaltam que elevadas exigências sanitárias não apenas protegem a saúde animal, mas também preservam a competitividade das exportações. Em um cenário de mercado global cada vez mais rigoroso, a comprovação de status sanitário livre de H5N1 torna-se determinante para a permanência e ampliação de acordos comerciais.
Além do trabalho de campo, as autoridades brasileiras intensificaram o monitoramento laboratorial de amostras coletadas em aves migratórias nos principais corredores ecológicos do país. O objetivo é detectar precocemente a presença do vírus e impedir sua entrada nas criações comerciais. A integração de dados entre Ministério da Agricultura, secretarias estaduais e centros de pesquisa é considerada fundamental para uma resposta rápida.
Os pesquisadores do Cepea reconhecem que o Brasil dispõe de estrutura técnica e normativa para lidar com emergências sanitárias, fato comprovado pela eliminação de surtos anteriores em curto período. Ainda assim, reafirmam que a expansão projetada para 2026 só se confirmará se o setor sustentar vigilância permanente, adoção de boas práticas em todas as etapas da cadeia e comunicação transparente com parceiros internacionais.
Dessa forma, o cenário de crescimento de 14,73 milhões de toneladas de carne de frango e aumento de 2,4 % nas exportações permanece condicionado à capacidade do país em evitar novos episódios de gripe aviária ou, caso ocorram, em solucionar rapidamente os focos. O desempenho econômico previsto depende, portanto, do equilíbrio entre eficiência produtiva e rigor sanitário, fatores que, segundo o Cepea, caminham juntos para assegurar a posição do Brasil como principal fornecedor global de carne de frango.









