A Delegacia de Atendimento à Mulher (DAM) de Três Lagoas, no leste de Mato Grosso do Sul, passou a operar com dois delegados para enfrentar o volume de ocorrências de violência doméstica e sexual registrado no município. Entre janeiro e dezembro de 2025, a unidade contabilizou cerca de 1.356 boletins que envolvem agressões físicas, ameaças e crimes sexuais, média superior a 80 vítimas por mês.
Com o reforço, a chefia permanece sob responsabilidade da delegada titular Sayara Quinteiro Martins, que agora conta com o apoio do delegado adjunto Johanes Deguti. Transferido há cerca de um mês da 1ª Delegacia de Água Clara, Deguti foi designado para auxiliar nos atendimentos especializados, ampliar o número de inquéritos concluídos e intensificar diligências que resultem em prisões de agressores.
Segundo levantamento realizado junto à Secretaria Estadual de Justiça e Segurança Pública (Sejusp-MS), ao menos 84 homens foram presos em Três Lagoas neste ano por suspeita de violência contra mulheres. As capturas incluem casos de lesão corporal, descumprimento de medidas protetivas, ameaça, perseguição e estupro. Para a DAM, a estatística confirma a necessidade de manter a política de “tolerância zero” contra autores de crimes domésticos.
Embora o total de ocorrências seja considerado alto, a direção da delegacia avalia que o aumento de registros também reflete maior confiança das vítimas no trabalho policial. O atendimento hoje envolve escuta especializada, avaliação de risco, solicitação de medidas protetivas de urgência ao Judiciário e, quando necessário, pedido de prisão preventiva ou flagrante. A rede local conta ainda com serviços de assistência social, apoio psicológico e orientação jurídica, articulados para interromper o ciclo de violência.
Apesar dos avanços, denunciar agressões continua sendo um desafio para grande parte das mulheres. De acordo com a DAM, fatores como dependência financeira do companheiro, preocupação com os filhos, medo de retaliação e receio de perder o sustento retardam ou inviabilizam o rompimento da relação abusiva. Em muitas ocorrências, o consumo de álcool está associado às agressões, elevando o risco de episódios mais graves e reincidências.
A delegacia observa que a violência raramente é instantânea; costuma surgir de forma gradual e se intensificar ao longo dos anos. Os primeiros sinais incluem xingamentos, controle excessivo e isolamento social. Quando a vítima procura a polícia, a situação frequentemente já envolve agressões físicas ou ameaças de morte, estágio que pode evoluir para feminicídio se não houver intervenção rápida.
Para melhorar a resposta, a DAM tem buscado acelerar a expedição de medidas protetivas de urgência, que podem determinar o afastamento do agressor do lar, proibir contato com a vítima e restringir a aproximação de familiares. A unidade também acompanha o cumprimento dessas determinações, articulando-se com o Ministério Público e o Poder Judiciário para solicitar reforços quando necessário.
A rede municipal de apoio engloba a Polícia Militar, o Centro de Referência de Assistência Social (CRAS), serviços de saúde e organizações da sociedade civil. A articulação pretende garantir abrigo emergencial, atendimento psicológico, encaminhamento para cursos de capacitação e inserção no mercado de trabalho, medidas consideradas essenciais para reduzir a dependência econômica que muitas vezes mantém as vítimas no ambiente violento.
Mulheres que sofrem qualquer forma de violência podem acionar a central telefônica Disque 180, disponível 24 horas em todo o país, ou comparecer diretamente à Delegacia de Atendimento à Mulher de Três Lagoas. O chamado pode ser feito pela própria vítima, por familiares, vizinhos ou qualquer pessoa que presencie a agressão. A orientação das autoridades é registrar o fato o quanto antes, reunir provas, relatar testemunhas e, se possível, buscar apoio de pessoas de confiança enquanto o processo de proteção e responsabilização avança.









