Um grupo de 140 pessoas privadas de liberdade em Campo Grande iniciou um curso de hidráulica de 40 horas, marcado como a primeira etapa de um novo programa de qualificação profissional dentro do sistema prisional da capital sul-mato-grossense. A aula inaugural ocorreu no Estabelecimento Penal Jair Ferreira de Carvalho e marcou o início de uma ação que combina formação técnica, sustentabilidade e ressocialização.
A iniciativa resulta de parceria entre a concessionária de saneamento Águas Guariroba, a Agência Estadual de Administração do Sistema Penitenciário (Agepen), o Governo do Estado e a Faculdade Senai de Construção. O projeto foi estruturado para oferecer conhecimentos práticos de hidráulica, mas também para atender necessidades de manutenção das próprias unidades prisionais, reduzindo desperdícios de água e melhorando as condições de infraestrutura interna.
Durante as 40 horas de aulas teóricas e práticas, os participantes aprendem a identificar pontos de vazamento, substituir conexões danificadas, ajustar válvulas de descarga e reparar torneiras. Ao final do treinamento, cada interno receberá certificado emitido pelo Senai, habilitando-o formalmente a exercer funções de encanador hidráulico quando concluir o cumprimento da pena e retornar ao mercado de trabalho.
Todo o material empregado na capacitação — ferramentas, peças, uniformes e equipamentos de proteção individual — foi doado pela concessionária responsável pelo abastecimento e esgotamento sanitário da cidade. A medida garante que a atividade ocorra sem custos para a administração pública e oferece aos reeducandos condições adequadas de aprendizagem em ambiente controlado.
Segundo a Águas Guariroba, o desenho do curso levou em conta dois objetivos principais. O primeiro é criar oportunidade concreta de qualificação para uma parcela da população carcerária que, em muitos casos, enfrenta dificuldades de acesso a programas educacionais. O segundo é diminuir o consumo excessivo de água nas unidades prisionais, já que reparos poderão ser executados pelos próprios internos capacitados, reduzindo gastos com equipes externas e minimizando perdas no sistema.
Na avaliação da concessionária, o resultado esperado engloba impacto social, econômico e ambiental. A possibilidade de economia direta na conta pública se soma ao aprimoramento das condições de higiene e ao incentivo ao consumo responsável de recursos hídricos em ambientes de alta demanda. Além disso, a concessão do certificado amplia a empregabilidade dos participantes, favorecendo a reinserção após a liberdade.
Autoridades ligadas à Justiça e à administração penitenciária consideram que a proposta traz benefícios mensuráveis. Para o secretário-executivo de Justiça, a oferta de treinamento técnico dentro do cárcere estimula a ressocialização e cria caminho efetivo para que os reeducandos adquiram profissão. Já o diretor-presidente da Agepen observa que a capacitação tende a refletir em economia para o Estado, pois a manutenção hidráulica passa a ser realizada internamente, reduzindo a necessidade de contratação de serviços externos.
No âmbito educacional, a Faculdade Senai de Construção enxerga o certificado como importante diferencial competitivo. De acordo com a gestão da instituição, o documento possui reconhecimento no setor da construção civil e pode funcionar como porta de entrada para atividades formais de encanamento, instalações prediais ou manutenção geral quando os detentos estiverem em liberdade, ampliando oportunidades de renda e reduzindo a reincidência criminal.
Responsáveis pela Águas Guariroba enfatizam que o programa faz parte de um conjunto de ações de responsabilidade social da empresa em Mato Grosso do Sul. A concessionária já atua em campanhas de uso consciente da água e entende que levar conhecimentos de hidráulica aos internos fortalece a cultura de preservação de recursos naturais, ao mesmo tempo em que promove qualificação técnica.
A expectativa dos parceiros é expandir o modelo para outras unidades prisionais do Estado nos próximos meses, alcançando mais detentos e diversificando as áreas de capacitação. Há estudos para incluir módulos sobre saneamento, tratamento de esgoto e processos de reutilização, sempre com foco em preparar mão de obra para demandas internas e para o mercado após o cumprimento das penas.
Com a combinação de ensino técnico, redução de custos operacionais e estímulo à ressocialização, o programa em Campo Grande surge como exemplo de intervenção que integra políticas públicas de segurança, educação profissional e sustentabilidade, unindo interesses do poder público, da iniciativa privada e da sociedade.








