Uma ação conjunta da Vigilância Sanitária de Mato Grosso do Sul e da Secretaria Estadual de Saúde retirou de circulação aproximadamente uma tonelada de medicamentos para emagrecimento sem registro oficial. Os produtos estavam em remessas postais retidas no centro logístico dos Correios, em Campo Grande, e foram confiscados ao longo dos últimos 75 dias. O resultado da operação, denominada Visa-Protege, foi divulgado nesta segunda-feira (20).
De acordo com as equipes de fiscalização, a carga se originou, em sua maior parte, no Paraguai. Para superar o sistema de raio-X, os responsáveis empregavam táticas de ocultação variadas: frascos de comprimidos eram inseridos em cabeças de bonecas, ursos de pelúcia, potes de cremes capilares, embalagens de tereré e até produtos de higiene pessoal. O expediente ilustra a tentativa de burlar o monitoramento e evidencia a utilização de Mato Grosso do Sul como corredor de entrada desse tipo de mercadoria.
As investigações revelaram um fluxo logístico recorrente. Depois de cruzar a fronteira, as encomendas eram levadas a centros de distribuição no estado e, dali, remetidas principalmente para consumidores no Nordeste. A repetição dessa rota chamou a atenção da Vigilância Sanitária, que passou a rastrear volumes suspeitos a partir de informações prévias e análises de padrões de postagem.
Entre os itens confiscados estão substâncias identificadas como TG, Lipoless, Tirzec e Retatrutida. Nenhum dos produtos possui registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), condição que impede a comercialização legal em território brasileiro. Além da ausência de autorização, os lotes foram transportados sem controle de temperatura, fator crítico para medicamentos que necessitam de refrigeração a fim de manter estabilidade e eficácia.
Para os técnicos que acompanharam a operação, o maior risco ao consumidor decorre justamente da falta de rastreabilidade. Sem origem clara, sem controle de qualidade e sem recomendação médica, o uso desses emagrecedores pode provocar efeitos adversos graves, ainda mais quando associados a substâncias de procedência desconhecida.
Todo o material recuperado foi encaminhado à Secretaria Estadual de Saúde e permanece sob guarda até a conclusão dos trâmites legais. O destino final será a incineração, procedimento executado pela Polícia Civil com protocolos semelhantes aos aplicados na destruição de drogas ilícitas.
No campo administrativo, a comercialização desses produtos sujeita os responsáveis a autuações, multas, apreensão de estoque e até interdição de estabelecimentos por prazo que pode chegar a 90 dias. Na esfera penal, os envolvidos podem responder pelos crimes de contrabando, infrações contra o consumidor e exercício irregular da profissão, dependendo da extensão da participação de cada um no esquema.
Os órgãos de saúde destacam que a operação não tem como foco impedir o avanço de tecnologias farmacêuticas, mas sim coibir o uso indiscriminado e sem supervisão de substâncias não avaliadas por autoridades reguladoras. O controle sobre o transporte e a entrada desses produtos busca evitar que cidadãos recorram a alternativas de origem desconhecida, motivados por promessas rápidas de perda de peso.
A Visa-Protege segue em andamento. Equipes de fiscalização mantêm vigilância permanente nos centros de triagem dos Correios e contam com o apoio de sistemas de inteligência para rastrear encomendas suspeitas. A orientação ao público é evitar a compra de medicamentos pela internet ou por canais informais, especialmente quando não há comprovação de registro sanitário.
O balanço preliminar indica que o volume recolhido nas últimas semanas supera em muito apreensões de períodos anteriores, o que reforça a avaliação de que grupos criminosos intensificaram a utilização das rotas de Mato Grosso do Sul para abastecer outras regiões do país. Os dados também sugerem que, diante do aumento da demanda por substâncias para emagrecimento, as organizações passaram a adaptar métodos logísticos tradicionalmente usados no tráfico de drogas.
A Secretaria Estadual de Saúde informou que relatórios detalhados serão encaminhados à Anvisa e às polícias Federal e Civil para subsidiar investigações em curso. A cooperação entre as diferentes esferas de governo permanece como estratégia central para bloquear novas remessas e identificar todos os responsáveis pela cadeia de distribuição.
Por enquanto, o lote de aproximadamente uma tonelada apreendido em Campo Grande representa a maior interceptação de medicamentos emagrecedores ilegais já registrada no estado. A continuidade do monitoramento promete ampliar a capacidade de detecção precoce e servir de base para futuras ações de fiscalização em outras regiões do país.








