Durante participação no programa Microfone Aberto, transmitido pela Rádio Massa FM Campo Grande, o professor de finanças corporativas da Trevisan Escola de Negócios, Paulo Casanova, apresentou os principais pontos da nova etapa do Desenrola Brasil, iniciativa do governo federal voltada à renegociação de dívidas. O acadêmico destacou que as regras atualizadas ampliam o público-alvo, incluem descontos expressivos sobre o débito original e limitam a taxa de refinanciamento, mas exigem análise cuidadosa do consumidor para evitar um novo ciclo de inadimplência.
Quem pode aderir
Segundo Casanova, a nova fase permite a inclusão de famílias com renda mensal de até cinco salários mínimos, teto que hoje equivale a R$ 8,1 mil. Para serem enquadradas no programa, as dívidas precisam ter sido contratadas até 31 de janeiro de 2026 e apresentar atraso que varie de 90 dias a dois anos. O especialista observa que, além das famílias, estudantes, agricultores familiares e micro e pequenas empresas também podem renegociar seus débitos, desde que obedeçam aos mesmos critérios de data de contratação e período de inadimplência.
Tipos de débitos contemplados
A lista de modalidades passíveis de renegociação inclui cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal, áreas que historicamente apresentam juros mais elevados. Na avaliação de Casanova, a extensão do programa a esses segmentos amplia a probabilidade de adesão, pois atinge parte significativa dos passivos de pessoas físicas e pequenos negócios.
Descontos e condições de pagamento
As instituições financeiras que aderirem ao Desenrola Brasil poderão conceder descontos de 30% a 90% sobre o valor total da dívida, percentual que varia conforme o tipo de contrato e o tempo de atraso. Após a aplicação do desconto, o saldo refinanciado terá taxa máxima de 1,99% ao mês. Para o professor, as condições se mostram vantajosas principalmente para quem hoje paga juros mais altos no mercado, mas o benefício efetivo depende da comparação entre a taxa atual e a que será aplicada após a renegociação.
Negociação direta com o banco
Nesta etapa, o acordo será feito diretamente entre devedor e instituição financeira, sem necessidade de intermediação por plataformas externas. Casanova avalia que os bancos tendem a apresentar propostas flexíveis, pois muitos desses créditos têm baixa perspectiva de recuperação no modelo convencional de cobrança. A negociação direta deve, na visão dele, acelerar os acordos e oferecer prazos mais adequados ao orçamento de cada cliente.
Importância do planejamento
Apesar dos incentivos, o professor alerta que a adesão deve ser precedida por uma avaliação minuciosa da renda disponível. “O consumidor precisa fazer as contas com calma”, enfatizou durante a entrevista. Ele recomenda simular o valor das parcelas e confrontar o compromisso mensal com outras despesas fixas, para reduzir o risco de inadimplência futura. Caso o orçamento apresente margem estreita, a orientação é negociar prazos mais longos ou postergar a adesão até que haja folga financeira.
Benefícios potenciais
Entre os ganhos apontados, Casanova destaca a possibilidade de reabilitação do crédito, fator que pode facilitar contratações futuras de financiamentos ou linhas de capital de giro, no caso de pequenos empreendimentos. O alívio imediato no fluxo de caixa familiar ou empresarial também é citado como vantagem relevante, desde que o novo cronograma de pagamentos seja honrado.
Riscos de um novo endividamento
O especialista pondera que, embora o programa represente “oportunidade concreta para regularização financeira”, seus efeitos duradouros dependem de uma mudança estrutural na gestão do orçamento doméstico. Para evitar retorno à inadimplência, ele sugere estabelecer reservas de emergência, controlar gastos variáveis e priorizar o pagamento de dívidas de maior custo.
Passo a passo sugerido
Na entrevista, Casanova listou orientações práticas aos interessados:
- Levantar todas as dívidas passíveis de inclusão no Desenrola Brasil.
- Solicitar ao credor a taxa de juros atual e as demais condições vigentes.
- Comparar as ofertas de desconto e o custo efetivo total após o refinanciamento.
- Calcular o valor da parcela e verificar se ela cabe no orçamento mensal.
- Ajustar despesas e criar um plano de acompanhamento para evitar atrasos.
Perspectiva para o programa
Embora ainda não haja estimativa oficial de quantos contratos serão renegociados, o professor acredita que o alcance pode superar o da fase inicial, justamente pela incorporação de novos perfis de devedores e pelo teto de juros relativamente baixo. Ele reforça, contudo, que o impacto sobre o endividamento das famílias dependerá da adesão de um número significativo de instituições financeiras e da capacidade de o consumidor honrar os acordos firmados.
Ao encerrar a participação no Microfone Aberto, Casanova reiterou que o Desenrola Brasil oferece instrumentos para “reorganizar a vida financeira”, mas não substitui a disciplina de longo prazo. “Limpar o nome é um passo importante, porém a estabilidade virá apenas com planejamento e controle contínuo das contas”, concluiu.









