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Suspensão do Prodes alivia setor, mas falhas tecnológicas ainda ameaçam crédito rural, alerta Famasul

A decisão do Conselho Monetário Nacional (CMN) de adiar para o próximo ano a aplicação do Programa de Monitoramento do Desmatamento por Satélite (Prodes) foi recebida com cautela pelos representantes do agronegócio em Mato Grosso do Sul. Embora o adiamento elimine o risco imediato de bloqueio de financiamentos, o setor considera que a medida não resolve a principal preocupação: a confiabilidade do sistema utilizado para cruzar imagens de satélite e liberar ou travar operações de crédito.

O presidente da Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul (Famasul), Marcelo Bertoni, comentou o assunto durante participação no programa “Agro é Massa”, da Rádio Massa FM Campo Grande, na segunda-feira (18). Segundo ele, a suspensão temporária foi resultado de uma articulação política envolvendo representantes do setor produtivo, parlamentares e o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). A expectativa inicial era que o tema fosse votado em projeto específico, mas um acordo transferiu a decisão para o CMN, que optou pelo adiamento.

“O Prodes estava sendo aplicado e nós trabalhamos muito na parte política. Houve um acordo e o Conselho Monetário Nacional decidiu suspender para que a aplicação fique para o ano que vem”, relatou Bertoni. O dirigente salientou, entretanto, que o problema central permanece: a possibilidade de imagens imprecisas provocarem interpretações equivocadas e, como consequência, bloquearem linhas de financiamento usadas pelos produtores para custear plantio, manejo e colheita.

De acordo com Bertoni, o mecanismo atual do Prodes cruza fotografias de satélite com ferramentas de inteligência artificial que apontam supostos desmatamentos. Caso a área do produtor seja classificada como irregular, o sistema automaticamente restringe o acesso a crédito rural. “Muitas vezes o produtor não está fazendo nada errado, mas acaba sendo afetado pela análise da ferramenta”, afirmou. Na prática, a interrupção do fluxo financeiro pode atrasar etapas críticas do calendário agrícola, comprometendo toda a safra.

O presidente da Famasul citou situações em que softwares já utilizados no monitoramento agrícola enfrentam dificuldades para distinguir culturas em fases iniciais, áreas de reflorestamento ou vegetação nativa em regeneração. “Às vezes, a imagem não consegue identificar se é uma área de eucalipto em formação ou vegetação nativa se recompondo. Quando há dúvida, é preciso fazer verificação em campo”, explicou. Essa limitação, segundo ele, pode se repetir em diversas culturas e resultar em penalidades indevidas a produtores que seguem a legislação ambiental.

Bertoni também apontou o impacto financeiro provocado por processos de contestação. Quando o crédito é travado, o produtor precisa contratar consultores ou advogados para comprovar a regularidade da área, o que eleva custos e prolonga o tempo de liberação dos recursos. “Você perde o tempo do plantio, perde o tempo do manejo”, ressaltou. Para propriedades que dependem do cronograma agrícola, semanas de atraso podem significar redução de produtividade e aumento de despesas.

Ainda que a suspensão represente uma vitória momentânea, a entidade planeja manter diálogo com o governo federal e o Congresso Nacional a fim de aprimorar o Prodes antes da nova data de implementação. “Mesmo voltando no ano que vem, nós vamos continuar trabalhando para melhorar esse processo. A ferramenta precisa evoluir muito”, declarou Bertoni. O objetivo da Famasul é garantir segurança técnica e operacional que impeça prejuízos a produtores cumpridores da legislação ambiental.

A discussão sobre o Prodes movimenta não apenas Mato Grosso do Sul, mas todo o país, pois envolve a maior fonte de financiamento do campo: o crédito rural. Sem esses recursos, cadeias produtivas de grãos, pecuária e florestas plantadas ficam vulneráveis a atrasos e quebras de safra. O setor argumenta que a adoção de tecnologias mais precisas, somada a protocolos de validação em campo, pode reduzir o risco de equívocos e assegurar que apenas casos efetivamente irregulares sofram sanções.

Enquanto aguarda definições, a Famasul orienta produtores a manter documentação ambiental atualizada, mapas georreferenciados e registros fotográficos das áreas produtivas. A federação também acompanha reuniões técnicas em Brasília que visam ajustar critérios de detecção de desmatamento e estabelecer prazos razoáveis para defesa. Para o segmento, o desafio é equilibrar monitoramento ambiental eficaz com segurança jurídica e financeira para quem depende do crédito rural.

O adiamento do Prodes pelo CMN, portanto, afasta pressões imediatas sobre o fluxo de financiamento, mas reforça a necessidade de aprimoramento tecnológico e regulatório. Até que o sistema apresente grau de precisão capaz de evitar bloqueios indevidos, o setor produtivo seguirá mobilizado a fim de proteger o calendário agrícola e a continuidade das atividades no campo.