O cotidiano de uma família em Corumbá, no interior de Mato Grosso do Sul, foi transformado em agosto do ano passado, quando uma jovem de 22 anos foi morta em um caso de feminicídio em uma fazenda da região. Os filhos da vítima, um menino de 6 anos e uma menina de 8, presenciaram o assassinato. Desde então, a avó materna assumiu a guarda dos dois irmãos e de outro neto, de 7 anos, concentrando esforços para oferecer estabilidade emocional e financeira às crianças.
A responsabilidade inesperada alterou a rotina da cuidadora. Com dedicação integral aos netos, ela deixou de trabalhar e passou a depender de programas sociais estaduais para suprir despesas básicas. O principal auxílio é o Programa Recomeços, criado para filhos de vítimas de feminicídio e mulheres que enfrentam violência doméstica. Por meio desse benefício, os irmãos recebem R$ 1.621 mensais, valor destinado a alimentação, vestuário, material escolar e outras necessidades.
A família também é atendida pelo Mais Social, iniciativa que apoia cerca de 26 mil lares em situação de vulnerabilidade em Mato Grosso do Sul. A avó recebe R$ 450 por mês, montante vinculado à compra de alimentos. Segundo ela, o suporte financeiro chegou em momento decisivo, pois as despesas aumentaram após a perda da filha, enquanto a renda familiar foi reduzida a zero.
Assistência ampliada
Além da ajuda monetária, as crianças contam com acompanhamento psicológico fornecido pela rede pública de ensino, medida considerada essencial para enfrentar o trauma de terem assistido ao crime. A intervenção profissional busca minimizar impactos emocionais e garantir o desenvolvimento escolar, uma vez que questões de comportamento e atenção costumam surgir em casos de violência familiar.
A avó, que prefere manter a identidade preservada por segurança, relata dificuldades para lidar simultaneamente com o luto pela morte da filha e as demandas das três crianças. Consultas médicas, tarefas escolares e eventuais noites mal dormidas fazem parte de uma agenda que não dá espaço para o retorno ao mercado de trabalho. Ela destaca que, sem os benefícios sociais, não conseguiria arcar com despesas básicas, como alimentação, vestuário e itens de higiene.
Investigação e situação do suspeito
O homem apontado como autor do feminicídio manteve relacionamento de aproximadamente seis meses com a vítima. Ele foi preso logo após o crime e aguarda julgamento. A investigação sobre as circunstâncias do assassinato continua em andamento, e o processo judicial ainda não tem data definida para conclusão.
Programa Recomeços
Instituído pelo Governo de Mato Grosso do Sul, o Programa Recomeços atende atualmente 22 pessoas no estado, abrangendo tanto mulheres que deixam abrigos de proteção quanto filhos de vítimas de feminicídio. A iniciativa oferece auxílio financeiro, acompanhamento psicológico e orientações para acesso a serviços públicos, como saúde e educação. De acordo com a Secretaria de Estado de Assistência Social e dos Direitos Humanos, o objetivo é mitigar os efeitos de crimes de violência doméstica e permitir que famílias reconstruam a vida com maior segurança.
A secretária Patrícia Cozzolino enfatiza que a combinação de recursos financeiros e apoio psicossocial é fundamental para que beneficiários retomem a rotina. O programa também prevê encaminhamento para cursos de capacitação profissional, quando possível, com foco na autonomia das mulheres assistidas.
Impactos na infância
No caso da família de Corumbá, o silêncio passou a ser parte frequente do ambiente doméstico. Segundo relatos da avó aos profissionais que acompanham a situação, perguntas sobre a mãe ainda surgem, e a saudade é um sentimento constante. O trabalho dos psicólogos escolares envolve atividades lúdicas e conversas individuais, adaptadas à idade de cada criança, para promover a expressão de emoções e a compreensão do luto.
Especialistas explicam que a exposição direta a atos de violência pode causar transtornos de ansiedade, distúrbios do sono e dificuldades de socialização. A intervenção precoce, aliada à estabilidade no lar, é vista como fator decisivo para reduzir danos a longo prazo. Por esse motivo, a manutenção das crianças com um parente próximo, somada ao suporte governamental, é considerada estratégia adequada pelos profissionais de assistência social.
Desafios permanentes
Embora os programas sociais aliviem parte das despesas, o impacto emocional permanece. A avó relata que a ausência da filha é sentida em cada detalhe da casa, desde momentos de estudo até as refeições. A reconstrução da rotina acontece aos poucos, dia após dia, enquanto a família busca novas referências de afeto e segurança.
O caso ilustra a multiplicidade de consequências geradas pelo feminicídio, indo além da perda imediata e afetando a estrutura familiar e a infância das vítimas indiretas. Em Mato Grosso do Sul, a combinação entre benefícios financeiros, assistência psicológica e acompanhamento social pretende reduzir essas consequências, embora não seja suficiente para compensar a ausência da mãe.
Enquanto o processo judicial segue pendente, a prioridade da avó é garantir que os netos tenham cuidados médicos, educação regular e um ambiente doméstico estável. A longo prazo, ela espera que as crianças possam desenvolver projetos de vida que não sejam definidos pela tragédia que testemunharam.
Até lá, a família segue contando com o Programa Recomeços, o Mais Social e a solidariedade de pessoas próximas para suprir demandas básicas. Em meio a lembranças dolorosas, a avó afirma que o compromisso diário é dar proteção, acolhimento e amor aos netos, na tentativa de oferecer perspectivas de futuro além da violência que marcou o passado recente.









