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Justiça iraniana condena cantora a 74 chicotadas por vídeo sem hijab

A Justiça do Irã sentenciou a cantora Parastoo Ahmadi, 29, a 74 chicotadas sob a acusação de divulgar conteúdo considerado imoral e de violar a castidade pública. A decisão foi motivada pela publicação de um vídeo no YouTube no qual a artista aparece cantando com o rosto e os ombros descobertos, sem o uso do hijab, véu obrigatório para mulheres no país desde a Revolução Islâmica de 1979.

O veredicto, informado nesta semana por documentos compilados pela organização Abdorrahman Boroumand Center for Human Rights, inclui ainda sanções contra a equipe que participou da gravação. Oito profissionais responsáveis pela produção foram igualmente condenados, embora o teor exato das punições atribuídas a cada um não tenha sido detalhado nos relatórios divulgados.

Além do castigo físico, Ahmadi recebeu proibição de realizar qualquer atividade artística e impedimento de deixar o território iraniano durante dois anos. As restrições passam a valer imediatamente após a publicação da sentença. Caso desrespeite as determinações, a cantora fica sujeita a novas penalidades criminais, conforme prevê a legislação local.

A gravação que originou o processo mostra a musicista usando traje preto e executando uma performance solo. Leis iranianas proíbem apresentações públicas de canto por vozes femininas, interpretação que se estende a transmissões digitais acessíveis ao público. Na descrição do conteúdo, Parastoo Ahmadi classificou o ato como um “concerto imaginário” e defendeu o direito de se expressar artisticamente no próprio país, argumento que não foi aceito pelo tribunal.

A repercussão do vídeo levou à prisão imediata da cantora e de dois instrumentistas da banda poucas horas depois da publicação, ainda em 2024. Todos foram libertados dias depois mediante pagamento de fiança fixada em cerca de 37 mil euros, valor equivalente a aproximadamente R$ 218 mil na cotação atual. Desde então, o grupo aguardava em liberdade o julgamento, que culminou na pena corporal anunciada nesta semana.

Parastoo Ahmadi já era conhecida por contestar normas teocráticas impostas pelo governo de Teerã. Seu nome ganhou visibilidade internacional durante a onda de manifestações impulsionada pelo slogan “Mulher, Vida, Liberdade”, deflagrada após a morte de Jina Mahsa Amini em 2022. A jovem faleceu sob custódia policial depois de ser detida por suposto uso incorreto do hijab, caso que provocou protestos em várias cidades iranianas.

A mobilização contra restrições civis e comportamentais segue presente dentro e fora do Irã, com ações que combinam manifestações de rua e desobediência civil nas redes sociais. Entre os exemplos recentes, destaca-se o ato da ativista Melika Barahimi, 23, refugiada no Canadá. Em publicação digital, ela apareceu sem o véu enquanto ateava fogo a uma imagem de Ali Khamenei, líder político e religioso que morreu em decorrência de ataques atribuídos aos Estados Unidos e a Israel, segundo versões citadas em redes sociais. A atitude de Barahimi desencadeou uma série de iniciativas semelhantes promovidas por outras mulheres iranianas.

Nesse contexto, diferentes usuárias passaram a registrar momentos em que acendem cigarros em locais públicos ou divulgam fotografias sem o lenço obrigatório, transformando gestos cotidianos em símbolos de oposição às políticas de vestimenta impostas pelo Estado. Esses atos, embora não ocorram em território iraniano no caso de exiladas, repercutem no país e expõem, segundo entidades de direitos humanos, o clima de tensão entre autoridades e setores da sociedade que reivindicam maior liberdade individual.

Organizações independentes de monitoramento, como o Abdorrahman Boroumand Center, alertam que penas corporais, proibições de viagem e restrições profissionais se tornaram mecanismos frequentes utilizados pelo Judiciário iraniano para coibir manifestações culturais de dissidência. Nos últimos anos, músicos, cineastas, atores e atletas relataram medidas semelhantes após questionarem publicamente normas religiosas ou políticas.

Com a condenação confirmada, Parastoo Ahmadi deverá comparecer a unidade penitenciária designada para cumprimento da sentença de 74 chicotadas. Não há, até o momento, indicação de recurso apresentado pela defesa. Organizações internacionais voltadas à proteção da liberdade artística acompanham o caso e avaliam eventuais estratégias de apoio jurídico, mas a legislação iraniana limita a interferência de entidades estrangeiras em decisões judiciais locais.

O caso de Ahmadi reforça a série de episódios recentes em que mulheres iranianas enfrentam punições severas por desafiar regras relacionadas ao uso do hijab e à participação em atividades culturais. Especialistas em direitos humanos observam que a pressão externa e a mobilização interna continuarão a moldar as respostas do governo, mas alertam que, por ora, a legislação vigente permanece inalterada, mantendo a exposição de artistas e ativistas a sanções como as impostas nesta semana.

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