A Secretaria de Estado de Saúde de Mato Grosso do Sul (SES) promoveu, nesta sexta-feira (19), a incineração de aproximadamente uma tonelada de medicamentos e produtos de uso estético sem registro sanitário. A queima ocorreu em uma empresa especializada no tratamento de resíduos localizada em Dourados, após escolta da Polícia Rodoviária Federal durante o trajeto da carga, que partiu de Campo Grande.
De acordo com a Vigilância Sanitária Estadual, o lote destruído incluía canetas emagrecedoras, análogos de GLP-1, peptídeos voltados a procedimentos estéticos e esteroides anabolizantes importados sem autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). O valor estimado dos itens ultrapassa R$ 15 milhões, o que torna a ação uma das maiores já registradas no país para a eliminação de produtos farmacêuticos irregulares.
Origem das apreensões
Os produtos foram recolhidos em operações de fiscalização realizadas em centros de distribuição dos Correios e em transportadoras que atuam em diversas regiões do Estado. Somente em 2024, mais de 20 mil unidades sem procedência legal foram retiradas de circulação, segundo dados oficiais.
Grande parte do material era comercializada por meio de redes sociais, aplicativos de mensagens ou plataformas digitais, ambientes que não exigem comprovação de origem, condições de armazenamento ou transporte adequado. A Vigilância Sanitária aponta que esses canais facilitam a entrada de medicamentos falsificados ou desviados, elevando o risco para consumidores que buscam substâncias para emagrecer ou melhorar o desempenho físico.
Impacto para a saúde pública
Para o gerente da Vigilância Sanitária Estadual, Matheus Pirolo, a destruição representa a última etapa de um processo que visa proteger a população. “A incineração impede que itens apreendidos retornem ao mercado e reforça o combate permanente ao comércio ilegal”, afirmou. Ele acrescentou que o volume recolhido em poucos meses evidencia a dimensão do mercado clandestino e reforça a necessidade de fiscalização contínua.
O diretor-executivo da Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma), Serafim Branco Neto, também ressaltou os perigos associados à compra em canais não autorizados. Segundo ele, a rastreabilidade é fundamental para garantir que o consumidor receba um produto armazenado em temperatura correta e dentro do prazo de validade definido pelo fabricante.
Riscos do uso sem prescrição
A endocrinologista Bianca Paraguassu, representante da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia em Mato Grosso do Sul, alerta que medicamentos destinados ao emagrecimento, principalmente os de base biológica, exigem armazenagem controlada. “Fora dos canais regulados, não há garantia de eficácia nem de pureza”, observou. A especialista cita casos em que análises laboratoriais identificaram substâncias diferentes das informadas no rótulo, variando de inertes sem efeito terapêutico a componentes potencialmente tóxicos.
Entre os problemas associados ao uso indiscriminado de análogos de GLP-1 e anabolizantes estão náuseas intensas, vômitos, desidratação, pancreatite, complicações na vesícula e lesões renais. A médica também chama atenção para a perda acelerada de massa muscular e óssea, quadro que pode gerar impactos duradouros na saúde do usuário.
Bianca Paraguassu enfatiza que o tratamento de obesidade deve ser individualizado, envolvendo avaliação médica, acompanhamento multidisciplinar, mudanças de estilo de vida e, quando indicado, uso de medicamentos legalmente prescritos. “A automedicação expõe o paciente a riscos desnecessários”, concluiu.
Procedimentos de fiscalização
Segundo a SES, as ações de campo contam com o apoio da Polícia Rodoviária Federal, da Receita Federal e de órgãos municipais de saúde. Operações de rotina verificam cargas suspeitas em rodovias, centros de distribuição, pontos de entrega rápida e estabelecimentos comerciais. Quando identificados medicamentos sem registro ou armazenados de forma inadequada, a carga é apreendida e encaminhada para análise. Caso seja confirmada a irregularidade, o material é destinado à destruição, como ocorreu nesta semana.
A legislação federal estabelece que a produção, importação e comercialização de medicamentos dependem de autorização da Anvisa. A venda de substâncias sem registro configura crime contra a saúde pública, sujeito a penas que incluem multa e detenção.
Orientação ao consumidor
As autoridades recomendam que a população adquira medicamentos apenas em farmácias e drogarias licenciadas, exija nota fiscal e verifique se o produto possui número de lote e data de validade legíveis. Qualquer suspeita de comércio irregular pode ser denunciada à Vigilância Sanitária local ou por meio do telefone 136, do Ministério da Saúde.
Com a incineração concluída, a SES reforçou que continuará realizando operações integradas para reduzir a circulação de itens clandestinos no Estado. O objetivo, segundo o órgão, é proteger a saúde pública e assegurar que somente produtos avaliados pela Anvisa cheguem aos consumidores.








