O 11º Encontro de Gestores, integrado à programação do RCN Agro 2026, recebeu nesta terça-feira (14) a produtora rural Carmen Perez para uma palestra sobre tomada de decisões na pecuária. Considerada referência nacional em práticas de bem-estar animal, a convidada chamou a atenção dos participantes ao questionar se as escolhas cotidianas no campo são guiadas por dados, razão, tradição ou emoção. A reflexão norteou toda a apresentação e abriu espaço para discutir produtividade, sustentabilidade e ética na criação de bovinos.
No início da exposição, Perez relatou como assumiu, aos 22 anos, a fazenda da família no Vale do Araguaia. Sem formação técnica específica e em um ambiente majoritariamente masculino, buscou entender todas as etapas do negócio o mais rápido possível. Ela contou ter acompanhado de perto as atividades diárias até identificar que certos procedimentos de manejo agressivo não eram pontuais, mas sim parte de um método estabelecido havia décadas. A constatação levou a uma decisão considerada determinante em sua trajetória: eliminar gritos, pancadas e xingamentos durante o trato com os animais.
Segundo a produtora, a resistência ao tema ainda é significativa. Muitos profissionais associam bem-estar animal a uma abordagem sentimental que entraria em conflito com a lógica econômica. Para enfrentar o preconceito, Perez ressaltou que se amparou em pesquisas científicas. Com base em literatura especializada, passou a adotar os chamados cinco domínios — nutrição, ambiente, saúde, comportamento e estado mental — como parâmetros para avaliar e aprimorar a condição dos rebanhos. Dessa forma, defendeu que o conceito não se limita a oferecer conforto, mas envolve métricas objetivas que podem ser gerenciadas como qualquer outro indicador de produção.
A palestrante apresentou exemplos práticos para ilustrar a relação entre manejo humanizado e desempenho financeiro. Animais conduzidos sem estresse, afirmou, tendem a responder melhor à alimentação, apresentam ganho de peso mais uniforme e sofrem menos lesões, fatores que reduzem perdas e aumentam a margem de lucro. Além disso, práticas adequadas diminuem riscos operacionais, já que equipes lidam com bovinos mais calmos e previsíveis, reduzindo acidentes de trabalho e custos associados.
Perez chamou a atenção para a importância da gestão de pessoas nesse processo. De acordo com ela, o resultado da fazenda é diretamente afetado pela estabilidade e pelo preparo da equipe. Mudanças constantes de funcionários podem comprometer a continuidade das práticas implantadas, exigindo investimentos contínuos em treinamento. Por isso, incentiva que proprietários e gerentes avaliem o clima organizacional com a mesma prioridade dada a indicadores zootécnicos.
Outro ponto discutido foi a necessidade de romper com a justificativa “sempre foi assim”. Para a produtora, tradições podem ter valor, mas não devem impedir a adoção de métodos mais eficientes. Ela sugeriu que decisões passem a incorporar dados de desempenho, análises econômicas e evidências científicas, sem ignorar o aspecto ético. No entendimento da palestrante, a combinação de rentabilidade e respeito ao animal é não apenas possível, mas estratégica para atender a demandas de mercado cada vez mais exigentes em relação à origem dos alimentos.
A experiência pessoal serviu de exemplo para empresários presentes no encontro. Perez relatou que, após implementar mudanças de manejo, observou melhorias na produtividade e na imagem da propriedade junto a compradores e parceiros. A adoção de protocolos de bem-estar passou a ser percebida como diferencial competitivo, especialmente em negociações que exigem certificações ou rastreabilidade.
Ao encerrar a apresentação, a produtora reforçou que a pecuária brasileira tem potencial para se consolidar como referência global em eficiência sem renunciar à responsabilidade ética. Para isso, defendeu que gestores alinhem metas de produção a práticas que preservem a integridade física e mental dos animais, adotem indicadores claros para medir resultados e invistam no desenvolvimento de suas equipes. Segundo Perez, a construção de uma pecuária mais racional depende de decisões conscientes e fundamentadas em conhecimento técnico, capazes de gerar benefícios para toda a cadeia produtiva.









