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China fixa cotas para carne bovina e eleva tarifas; Brasil terá limite anual de 1,106 milhão de toneladas

A China introduzirá, em 1º de janeiro de 2026, um sistema de salvaguarda para as importações de carne bovina que altera de maneira significativa as condições de acesso ao maior mercado estrangeiro da pecuária brasileira. A medida estabelece cotas anuais por país durante três anos e prevê tarifas mais altas sobre os embarques que ultrapassarem esses limites.

De acordo com as regras divulgadas, o Brasil poderá exportar até 1,106 milhão de toneladas por ano dentro da cota, volume sujeito a taxa alfandegária de 12%. Os embarques adicionais sofrerão uma sobretaxa de 55%, elevando a carga tributária total para 67% quando a quota for excedida. O sistema vale inicialmente até 2028, com possibilidade de revisão ao término do período.

O impacto sobre o setor brasileiro é expressivo. Em 2025, o país remeteu à China cerca de 1,7 milhão de toneladas, quantidade que representou 48,3% de todas as vendas externas de carne bovina. Caso o padrão de embarques seja mantido, pouco mais de um terço do volume atual ficaria sujeito à tarifa majorada, pressionando margens e exigindo reajustes nas estratégias de produção e comercialização.

A medida chinesa integra uma política voltada à proteção da pecuária doméstica, que enfrenta dificuldades após um ciclo de oferta elevada. Segundo o governo do país asiático, o avanço das importações provocou queda de preços internos e aumento da ociosidade nos frigoríficos locais, cenário que levou Pequim a adotar salvaguardas para restabelecer equilíbrio no mercado.

Além dos limites individuais, a China fixou uma cota global de 2,7 milhões de toneladas para 2026, com expansão gradual ao longo dos três anos de vigência do mecanismo. A repartição dessa cota entre os principais fornecedores — Brasil, Argentina, Uruguai, Estados Unidos, Austrália e outros — definirá o espaço efetivo de cada país no mercado chinês.

No Brasil, a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (ABIEC) e a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) avaliam que a nova exigência mudará a configuração dos fluxos de exportação e exigirá readequação de plantas frigoríficas, contratos de compra de gado e logística de escoamento. As entidades observam que os embarques destinados à China concentram cortes de maior valor agregado, diferenciados do perfil consumido internamente, influenciando diretamente a geração de renda ao longo da cadeia produtiva.

Embora as salvaguardas dificultem o acesso sem tarifa adicional, as organizações ressaltam que o mercado chinês continua sendo o principal destino da carne bovina brasileira e peça estratégica na sustentabilidade econômica da pecuária nacional. A relação comercial construída ao longo das últimas décadas baseia-se em fornecimento regular, previsibilidade e cumprimento rigoroso de requisitos sanitários.

O setor pecuário exerce papel relevante na economia brasileira. Estimativas apontam para cerca de 7 milhões de empregos diretos e indiretos, distribuídos em milhares de municípios. Aproximadamente 70% da carne produzida no país permanece no mercado interno, enquanto 30% é destinada às exportações, o que torna o comércio exterior elemento complementar para o equilíbrio de oferta e demanda.

A necessidade de adequação aos novos parâmetros chineses deve incentivar frigoríficos e pecuaristas a diversificar destinos e a ajustar o ritmo do abate, sobretudo em regiões fortemente dependentes do mercado asiático. Analistas do segmento consideram que parte da produção poderá ser redirecionada a mercados que oferecem tarifas mais baixas ou acordos preferenciais, embora a dimensão da China torne inevitável a busca por soluções específicas para preservar a competitividade.

Além das mudanças tarifárias, não foram anunciadas alterações nos requisitos sanitários ou nos protocolos de certificação já em vigor. Dessa forma, Brasil e demais fornecedores devem manter os mesmos padrões de rastreabilidade, inocuidade e inspeção atualmente aceitos pelo órgão aduaneiro chinês. A aplicação das cotas, no entanto, exigirá acompanhamento estreito de volumes embarcados, a fim de evitar a incidência de tarifas extras sobre cargas que ultrapassem o limite anual.

Nos próximos meses, governo brasileiro, indústrias e produtores devem intensificar o diálogo para definir estratégias que minimizem o impacto financeiro das salvaguardas. Entre as possibilidades em estudo estão a redistribuição de embarques entre empresas, o escalonamento de produção ao longo do ano e a intensificação de esforços para conquistar novos compradores na Ásia, Oriente Médio, América do Norte e União Europeia.

A introdução do mecanismo de salvaguarda pela China reforça a tendência de uso de instrumentos comerciais para proteger setores sensíveis em grandes economias. Para o Brasil, o desafio imediato será manter a posição de principal fornecedor sem comprometer a rentabilidade da cadeia produtiva, enquanto busca ampliar a presença em outros mercados para reduzir a dependência de um único destino.