Autoridades do Brasil, Argentina e Chile avaliaram, no segundo episódio de um podcast promovido pela Massa FM Campo Grande, os próximos passos do Corredor Bioceânico e os reflexos diretos para Mato Grosso do Sul. O grupo destacou que o sucesso do projeto depende menos da conclusão física da rodovia e mais da habilidade de estados e províncias em acelerar decisões, padronizar normas e preparar a mão de obra local para as oportunidades que surgirão.
O secretário-executivo da Agência Provincial do Corredor Bioceânico, Alejandro Marenco, lembrou que as definições finais continuam concentradas nos governos federais – Itamaraty, Palácio de López, Casa Rosada e Palácio de La Moneda. Segundo ele, a distância entre Brasília, Assunção, Buenos Aires e Santiago e as realidades regionais retarda iniciativas urgentes, como a padronização de documentos de trânsito ou a liberação de obras complementares em pontos críticos da rota.
Enquanto os trâmites centrais avançam lentamente, indicadores de movimentação confirmam a necessidade de soluções ágeis. No Passo de Jama, ligação andina entre Argentina e Chile, o fluxo de caminhões cresceu em 7 mil unidades entre 2024 e 2025, e quase 250 mil pessoas passaram pelo trecho no mesmo intervalo. A expectativa é que esses volumes aumentem à medida que produtores sul-americanos busquem deslocar mercadorias rumo aos portos chilenos, encurtando em até 17 dias a viagem para o mercado asiático em comparação com os embarques pelos portos de Santos ou Paranaguá.
Para que a vantagem logística se confirme, os participantes alertaram sobre a necessidade de harmonização aduaneira. O gestor de negócios do Escritório Comercial de Tarapacá em Campo Grande, Fábio Roberto Cordeiro, citou que filas de cinco a dez dias em fronteiras podem anular completamente o ganho de tempo pretendido. Ele mencionou o recente gargalo no Canal do Panamá como exemplo de como atrasos afetam cadeias globais e reforçou a urgência de procedimentos integrados no Mercosul e na Aliança do Pacífico.
Regulamentos divergentes também criam entraves operacionais. Marenco lembrou que o uso de bitrens, liberado em parte da Argentina, é vetado nas províncias de Jujuy e Salta devido à topografia sinuosa e à infraestrutura limitada. Em situações semelhantes, caminhoneiros precisam desacoplar carretas ou buscar rotas alternativas, elevando custos. Harmonizar essas normas ou oferecer infraestrutura compatível torna-se estratégico para garantir competitividade.
Na tentativa de contornar o ritmo lento da legislação federal, estados e províncias intensificaram a chamada paradiplomacia. O consórcio interestadual e interprovincial que reúne oito entes subnacionais articula demandas conjuntas diretamente com ministérios, sem aguardar mediação das capitais. De acordo com a coordenadora técnica da Agência Provincial na Argentina, Agustina Berayra, a cooperação “de baixo para cima” vem acelerando projetos como a criação de um sistema único de informação logística e de uma agenda de eventos para turismo integrado.
A assessora especial de integração da Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação de Mato Grosso do Sul (Semadesc), Danniele Paiva, destacou que a digitalização de processos aduaneiros é a prioridade local. Plataformas eletrônicas de registro de cargas e certificados sanitários permitem checagens antecipadas e reduzem paradas em postos de controle. A iniciativa, segundo ela, compensa parcialmente a demora na atualização de leis nacionais e já serve de modelo para outros estados brasileiros que integram o corredor.
O potencial econômico extrapola o transporte de grãos e carne. Cordeiro ressaltou oportunidades imediatas no turismo terrestre, impulsionado pelo crescimento de viagens em motorhomes e pelo interesse em roteiros de experiência. Atrativos como o deserto do Atacama, no Chile, e o Bioparque Pantanal, em Campo Grande, podem ser comercializados de forma combinada, estimulando estadias mais longas e o consumo em pequenas cidades ao longo do trajeto. Para dar suporte, o comitê estadual de governança (CEG-Rota) trabalha na sensibilização de prefeituras e na captação de recursos para infraestrutura urbana.
Parcerias acadêmicas já colhem resultados no intercâmbio científico. Universidades estaduais e federais de Mato Grosso do Sul mantêm pesquisas conjuntas com instituições chilenas voltadas à conservação do Pantanal e a tecnologias aplicadas à logística de longas distâncias. Na vertente social, programas do Sebrae-MS capacitam comunidades indígenas e quilombolas para o etnoturismo, inspirados em modelos administrados por povos originários do norte chileno.
Os participantes do debate concluíram que, para transformar o traçado viário em vetor de desenvolvimento, é fundamental levar investimentos em qualificação profissional até a ponta. A perspectiva é de demanda crescente por técnicos em logística, analistas de comércio exterior, guias de turismo e profissionais de tecnologia da informação. Secretarias estaduais articulam cursos específicos com escolas técnicas e instituições de ensino superior, preparando jovens para uma estrutura produtiva que, segundo as projeções, deve ganhar ritmo assim que as barreiras regulatórias forem superadas.









