Nesta quarta-feira, 6, o Dia da Literatura Sul-Mato-Grossense chega ao 18º ano de criação com um balanço de avanços modestos e muitos desafios. A data, instituída por lei estadual em 2006 por iniciativa da escritora e poetisa Delasnieve Daspet, foi pensada para promover autores locais, mas, segundo a idealizadora, permanece pouco celebrada e com impacto restrito.
Em entrevista concedida aos estúdios da rádio Massa FM, em Campo Grande, Delasnieve avaliou que o mercado livreiro ainda não oferece espaço adequado para a produção literária do Estado. Ao relatar visitas a livrarias da capital, a escritora afirmou que obras regionais costumam ficar em prateleiras menos visíveis, o que reduz o alcance do público. Para ela, a situação contraria o objetivo da lei que instituiu a data comemorativa: dar visibilidade ao escritor sul-mato-grossense.
A autora recordou que, desde a promulgação da norma, somente uma edição do dia dedicado à literatura local recebeu programação oficial do poder público. Apesar disso, garante que mantém a iniciativa ativa de forma independente, organizando eventos e articulações com outros autores sempre que possível.
Trajetória internacional
Nascida em Porto Murtinho, cidade localizada na região de fronteira com o Paraguai, Delasnieve Daspet construiu trajetória que ultrapassa os limites do Estado. Suas obras estão traduzidas para dez idiomas e já renderam prêmios de instituições como a Academia Francesa de Artes e Letras e a Biblioteca de Nova York. Em 2024, recebeu indicação ao Prêmio Nobel de Literatura pela Academia Internacional de Escritores Brasileiros, sediada no estado norte-americano da Flórida.
Além da atividade literária, ela representa o PEN Clube do Brasil na região Centro-Oeste, organização que defende a liberdade de expressão e a cooperação entre escritores. Nesse papel, articula ações para aproximar autores, editoras e instituições culturais, buscando ampliar a circulação da produção sul-mato-grossense.
Leitura e formação de público
Durante a entrevista, Delasnieve apontou a formação de leitores como principal obstáculo para a consolidação da literatura estadual. Na avaliação da escritora, o gosto pela leitura se desenvolve em casa, a partir do exemplo dos pais, e se consolida na escola. Por isso, defende a inclusão sistemática de obras regionais nos currículos de ensino fundamental e médio, estratégia que, segundo ela, ajudaria a criar vínculo afetivo dos estudantes com a própria cultura.
A poetisa também considera essencial que políticas públicas de cultura priorizem a circulação de autores locais em bibliotecas, feiras e eventos literários. Para ela, a oferta regular de debates, oficinas e lançamentos facilita o encontro entre escritores e leitores, criando mercado interno para livros produzidos no Estado.
União entre autores
Outro ponto destacado foi a necessidade de maior articulação entre os próprios escritores. Delasnieve defendeu que autores de diferentes gerações e gêneros literários atuem coletivamente para negociar espaços em livrarias, negociar com editoras e participar de programações culturais. Na visão da escritora, Mato Grosso do Sul possui produção “rica e numerosa”, mas carece de estratégias conjuntas para ganhar projeção nacional.
Poesia como registro do tempo
Ao final da participação na emissora, Delasnieve leu o poema “Sentimento de perda”, escrito no período mais crítico da pandemia de Covid-19. A obra, disse, traduz angústias vividas durante o isolamento social. A poetisa relacionou aquele contexto ao momento atual, definido por ela como “pandemia de sonhos não realizados”, e defendeu que a sociedade busque recomeçar projetos com esperança renovada.
Apesar das críticas à falta de reconhecimento, a escritora vê no Dia da Literatura Sul-Mato-Grossense uma oportunidade anual de mobilização. A cada 6 de setembro, pretende intensificar ações para que livrarias reservem espaço de destaque aos autores regionais, escolas adotem títulos locais e órgãos públicos programem atividades alusivas à data. Segundo Delasnieve, somente com iniciativas contínuas será possível retirar a produção literária do Estado da “sombra” e inseri-la de forma efetiva no circuito cultural brasileiro.









