A menor disponibilidade de bovinos para abate, combinada à elevação dos preços da carne, tem provocado uma onda de ajustes na indústria frigorífica norte-americana. Grandes empresas do setor estão encerrando unidades ou diminuindo turnos, o que reduz de forma significativa a capacidade de processamento dos Estados Unidos.
A JBS USA desativou a planta de Souderton, na Pensilvânia, cuja estrutura permitia o abate de aproximadamente 2 000 cabeças por dia. Ainda dentro do mesmo movimento, a companhia encerrou a fábrica de alimentos processados em Memphis, no Tennessee. Anteriormente, em 2025, já havia sido concluído o fechamento do frigorífico localizado em Riverside, na Califórnia.
Outra gigante do setor, a Tyson Foods, também promoveu cortes. A empresa encerrou a operação em Lexington, no estado de Nebraska, instalação projetada para processar até 5 000 bovinos diariamente. Além disso, a unidade de Amarillo, no Texas, passou a funcionar em regime de turno reduzido, medida que atingiu cerca de 1 700 empregados.
A Cargill, por sua vez, optou por descontinuar uma planta dedicada à produção de carne moída em Milwaukee, Wisconsin. Embora essa instalação não fosse voltada ao abate de animais, o fechamento contribui para a diminuição geral da capacidade de oferta de carne bovina no mercado interno.
Somados, os cortes anunciados por JBS e Tyson retiram do sistema norte-americano cerca de 7 000 cabeças por dia. O volume representa uma parcela considerável da capacidade total do país, que atualmente gira entre 120 000 e 125 000 animais abatidos a cada 24 horas. Na prática, a redução equivale a uma perda de 5% a 6% da capacidade diária de processamento de carne bovina nos Estados Unidos.
Dados divulgados pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) mostram a dimensão do problema na oferta de matéria-prima. No início de 2026, o rebanho bovino nacional foi estimado em 86,2 milhões de cabeças, número inferior às 86,5 milhões apuradas no ano anterior e o menor patamar em 75 anos. O encolhimento é ainda mais pronunciado no segmento de vacas de corte, que recuou para 27,6 milhões de cabeças, menor marca desde a década de 1950. Já a produção de bezerros foi calculada em 32,9 milhões, nível mais baixo desde 1941.
Especialistas atribuem a retração do rebanho a uma combinação de fatores climáticos e econômicos. Anos consecutivos de seca nas principais regiões produtoras forçaram criadores a reduzir estoques, pois a escassez de pastagem e o aumento do custo de alimentação tornaram inviável manter grandes quantidades de matrizes. Em paralelo, a elevação das despesas operacionais — especialmente com grãos usados na engorda — pressionou margens e levou muitos pecuaristas a antecipar abates ou vender fêmeas reprodutoras, acelerando o declínio do rebanho.
Embora existam sinais iniciais de recomposição, a avaliação predominante é que a recuperação ocorrerá lentamente. A reposição de vacas de cria depende de vários ciclos de produção e exige condições climáticas favoráveis para pastagens, além de estabilidade nos custos de ração. Dessa forma, mesmo que as decisões de retenção de fêmeas se intensifiquem nos próximos anos, a disponibilidade de animais prontos para abate tende a permanecer limitada no curto e médio prazos.
Esse cenário pressiona toda a cadeia de suprimento. Com menos bovinos disponíveis, frigoríficos enfrentam maior disputa por gado e margens mais apertadas, especialmente em regiões onde a oferta caiu de forma mais acentuada. As empresas vêm respondendo com fechamentos, redução de turnos ou realocação de capacidade para locais onde ainda há disponibilidade de animais.
Para o mercado, a diminuição da capacidade de processamento adiciona um componente extra aos preços da carne bovina, que já se encontram elevados em razão da oferta restrita. Consultorias afirmam que, enquanto não houver aumento significativo no rebanho, a tendência é de manutenção da pressão sobre custos na indústria e, consequentemente, de valores mais altos para o consumidor final.
No setor produtivo, produtores relatam maior cautela na seleção de fêmeas para descarte, tentando preservar matrizes capazes de ampliar o plantel quando as condições climáticas melhorarem. Ainda assim, a reversão do quadro dependerá da regularidade das chuvas, da redução do custo de insumos e de políticas que incentivem a permanência de criadores na atividade. Até que esses fatores convirjam, frigoríficos devem continuar ajustando sua capacidade para equilibrar a utilização das plantas com a oferta efetiva de gado.









