A escritora e jornalista Ana Maria Rodrigues Barbosa apresentou o livro infantojuvenil ‘Miados de Ditados’ durante a Feira Literária do Colégio Anglo, em Três Lagoas. A obra transforma expressões populares que usam gatos como referência em poemas curtos, com humor e linguagem acessível. A iniciativa busca aproximar crianças e adolescentes da leitura, brincando com a oralidade e a cultura da língua falada no cotidiano.
Em entrevista ao RCN Mob, realizada no estúdio móvel instalado no evento, Ana Maria explicou que a proposta é inverter o olhar sobre expressões que frequentemente associam o animal a situações humanas negativas. ‘A gente brinca com isso trazendo outra leitura, fazendo humor, passando pano para o gato’, resumiu a autora. A ilustradora da obra também contribuiu criando imagens que reforçam essa brincadeira com a cultura popular.
Com mais de 30 anos de atuação no jornalismo, Ana Maria reconhece que sua trajetória profissional influencia diretamente sua literatura. Acostumada a comunicar com clareza para leitores e telespectadores, ela levou para os poemas a concisão e a busca por uma linguagem simples. ‘Eu trago um pouco dessa fluidez, dessa facilidade do texto para a minha literatura. Isso me preocupava muito, porque eu achava que não conseguiria ser literária o suficiente por ser jornalista demais’, afirmou.
Estreia tardia aos 60 anos
A estreia na literatura veio no limite dos 60 anos de vida. Apesar da longa relação com a escrita, Ana Maria contou que nunca teve como sonho ser escritora de livros. Para ela, durante muito tempo, o livro parecia uma instituição distante, quase inalcançável, mesmo com a experiência acumulada no jornalismo. ‘Eu olhava o livro como uma instituição, como algo muito inalcançável. Embora eu saiba que tenha qualidade como escritora de jornalismo, eu tinha o livro como algo muito longe de mim’, relatou.
A virada aconteceu no ano passado, quando ela decidiu se permitir fazer coisas novas. Entre essas experiências, incluiu a literatura e começou a enviar textos para concursos, curadorias e editoras. Algumas tentativas não tiveram resposta, outras chegaram a fases finais, até que veio a primeira aprovação. ‘Quando eu ganhei o primeiro, eu animei. Falei: não, eu já sou escritora, vou ser escritora. Isso me empoderou’, contou. Para ela, submeter os textos a outros leitores foi uma forma de entrar no mercado literário e entender se havia espaço para sua produção.
A ideia de ‘Miados de Ditados’ nasceu de uma frase que acompanhava Ana Maria desde a época da faculdade. Quando morava na residência estudantil da USP, ela ajudava a cuidar dos gatos que viviam no local. Um dia, uma colega chegou irritada dizendo que o namorado a tratava ‘como gato e sapato’. A expressão ficou na memória da escritora. ‘Eu falei: por que essa relação do gato com sapato, tratando mal? E ficou aquela coisa na minha cabeça: gato não é sapato’, lembrou.
Origem e publicação independente
A partir dessa inquietação, Ana Maria passou a pesquisar ditados populares e percebeu a força da presença dos gatos na oralidade. Segundo ela, a lista chegou a 28 expressões com o animal, número bem maior do que encontrou com outros bichos. ‘Eu falei: o humano se identifica com o gato. Coitado do gato’, brincou. A ligação com o tema também é pessoal. Ana Maria se define como gateira, tem atualmente cinco gatos e diz que essa relação vem desde a infância. ‘Meus irmãos talvez gostassem de pegar fruta na casa da vizinha. Eu queria pegar gatinhos’, contou.
Embora também escreva crônicas, contos e microcontos voltados ao público adulto, Ana Maria afirmou que a literatura infantil é o campo em que deseja concentrar mais energia. Ela lê, pesquisa e compra livros infantis para si mesma, o que tornou natural a escolha de escrever para crianças. ‘Eu acho que seria natural eu escrever para as infâncias. O infantil é o que eu quero trabalhar mais, é o que eu quero trabalhar para esse público’, afirmou. A autora também destaca que os jovens de hoje têm mais possibilidades de acesso à leitura do que ela teve quando cresceu em Três Lagoas.
Na infância, segundo contou, era difícil comprar livros na cidade, e o acesso se limitava, muitas vezes, a gibis. Hoje, ela avalia que as opções digitais, as compras pela internet e os diferentes formatos de publicação ampliam o contato com os livros, embora ainda veja poucos espaços físicos dedicados à venda de obras na cidade. ‘Eu gosto de fazer com que a linguagem seja acessível mesmo. É um cacoete de jornalista’, disse.
Ana Maria decidiu publicar ‘Miados de Ditados’ de forma independente, apesar de o livro ter passado por três editoras. Segundo ela, o modelo oferecido previa 10% sobre a venda e ainda exigiria que ela comprasse exemplares caso quisesse presentear alguém. Diante disso, decidiu abrir uma pequena editora com o filho, em uma estrutura familiar de publicação. ‘Eu sou funcionária dele, escritora dele, e a gente está trabalhando até outros livros também’, brincou.
O livro pode ser comprado diretamente com a autora, pelas redes sociais, na Papelaria Contact, em Três Lagoas, e também pela plataforma Uiclap, serviço citado por ela como opção de impressão sob demanda. No fim da entrevista, Ana Maria destacou que Três Lagoas vive um momento importante na literatura, com autores locais lançando obras infantis, livros de autoajuda, autoconhecimento, fantasia e outros gêneros.
Segundo ela, escritores da cidade estão formando o coletivo ‘Três Lagoas Tem Literatura’, criado para discutir formas de potencializar a produção local. O grupo organiza uma feira literária de 2 a 5 de dezembro, na Biblioteca Municipal Rosário Congro, com atividades pela manhã e à tarde na quinta e na sexta, além de programação no sábado pela manhã. A autora também informou que o coletivo concorre a edital ligado à PNAB e tenta viabilizar recursos para realizar uma feira maior no próximo ano. ‘A gente está lembrando que essa cidade é a capital mundial da celulose e tem livro, tem literatura, tem gente escrevendo também’, afirmou.







