O papel do jornalismo profissional diante da expansão das redes sociais e da proliferação de boatos foi o centro das discussões do 4º Fórum Midiacom MS, realizado na quarta-feira (27) no Teatro Glauce Rocha, em Campo Grande. Com o tema “Entre algoritmos e boatos: A imprensa profissional como curadora do fato”, o encontro reuniu analistas, empresários de comunicação, estudantes e representantes do setor de rádio e televisão de Mato Grosso do Sul para avaliar como a confiança pública é afetada pela desinformação e pelas chamadas bolhas digitais.
Promovido pela Associação das Emissoras de Rádio e TV de Mato Grosso do Sul (Midiacom MS), o evento colocou em pauta estratégias para fortalecer o jornalismo baseado em apuração rigorosa. Ao longo do dia, especialistas apresentaram pesquisas sobre hábitos de consumo de mídia, índices de credibilidade e mecanismos de verificação de fatos, destacando a necessidade de manter processos editoriais qualificados em um ambiente marcado pelo excesso de conteúdo circulando sem filtros.
Consultor em mídia e inteligência de negócios, Fernando Morgado abriu a programação com dados que apontam a permanência do rádio e da televisão entre os meios mais consumidos pelos brasileiros. De acordo com informações exibidas pelo palestrante, oito em cada dez brasileiros ouvem rádio, dedicando em média três horas e quarenta e sete minutos diários ao meio. Já a televisão aberta alcança aproximadamente 66,7% da população, confirmando, segundo ele, a relevância da mídia tradicional mesmo diante do crescimento das plataformas digitais.
Morgado enfatizou que a força desses veículos está ancorada em processos de checagem robustos e na responsabilidade editorial: “é a informação verificada, apurada e produzida por profissionais habilitados”. Para o especialista, embora redes sociais tenham democratizado a publicação de conteúdo, também facilitaram a circulação de material sem critério técnico. Ele diferenciou eventuais erros cometidos por veículos — passíveis de correção — da produção deliberada de notícias falsas em escala industrial, fenômeno que considera de difícil controle.
O consultor também rebateu a percepção de perda de espaço da mídia tradicional. Para ele, há uma mudança na forma de consumo — impulsionada por dispositivos móveis e conteúdo sob demanda —, mas não um declínio na importância do rádio e da TV. Na avaliação apresentada, esses meios continuam cumprindo a função de referência para temas de interesse público e de filtro inicial para o noticiário.
Na sequência, o cientista político Felipe Nunes, doutor em ciência política e mestre em estatística pela Universidade da Califórnia em Los Angeles, apresentou recortes da pesquisa “Brasil no Espelho”, que ouviu 10 mil brasileiros para mapear comportamento, percepção política e valores sociais. Segundo o levantamento, o país enfrenta um ambiente de polarização ampliado por redes sociais, excesso de informação superficial e desconfiança coletiva. Nunes destacou que, apesar de os grupos mais radicais representarem parcela reduzida da sociedade, eles aparentam ser maiores porque “gritam mais” dentro do ecossistema digital.
O pesquisador chamou atenção para a dificuldade da população em identificar dados básicos sobre economia, violência, desemprego e pandemia. Conforme o estudo, 42% dos entrevistados erraram todas as perguntas de um teste simples sobre esses temas, mas, ainda assim, a maioria acreditava ter respondido corretamente. Para Nunes, essa chamada “ilusão do conhecimento” cria terreno fértil para a desinformação e reforça a relevância de veículos capazes de contextualizar números e fatos.
Ao longo do fórum, participantes defenderam que o fortalecimento da mídia profissional é essencial para combater boatos e recuperar a confiança do público. Entre as sugestões debatidas estão ampliar iniciativas de educação midiática, investir em pesquisas regulares de audiência e tornar públicos os critérios editoriais usados na checagem de informações. Para os participantes, a divulgação transparente de metodologias ajuda a diminuir a impressão de que rádio e TV estariam perdendo relevância.
A edição deste ano reuniu cerca de 500 convidados, entre executivos de emissoras, profissionais de redações, acadêmicos e estudantes de jornalismo. Além das palestras, o encontro ofereceu painéis sobre métricas de engajamento, cases de sucesso em verificação de fatos e oficinas voltadas à produção multiplataforma. O Fórum Midiacom MS encerrou-se com a mensagem de que, diante de um cenário de bolhas digitais, a apuração qualificada continua sendo a principal ferramenta para garantir informação confiável à sociedade.









