A formação histórica de Mato Grosso do Sul é definida pela chegada contínua de diferentes povos e culturas. Essa diversidade construiu a identidade do estado, impactando a gastronomia, a música e a economia local. O historiador Vitor Hugo Xavier Flandoli detalhou esse processo em entrevista ao programa Microfone Aberto, da Rádio Massa FM Campo Grande.
Flandoli é também influenciador digital e criador da série semanal Café com Chipa. No projeto, ele publica conteúdos nas redes sociais sobre curiosidades e acontecimentos históricos do estado. O objetivo é apresentar o passado sul-mato-grossense em linguagem acessível, mantendo o rigor acadêmico.
“Sou um professor, historiador apaixonado pelo nosso estado, pelo Mato Grosso do Sul. E decidi ocupar as redes, cara. Decidi começar a gravar uns vídeos, trazer um conteúdo acadêmico, com uma preocupação acadêmica, mas de uma maneira mais leve. E tem dado muito certo”, afirmou o especialista.
Origem do estado
Mato Grosso do Sul foi criado oficialmente pela Lei Complementar nº 31. A norma foi sancionada em 11 de outubro de 1977, durante o governo do presidente Ernesto Geisel. No entanto, a instalação efetiva do novo estado ocorreu apenas em 1º de janeiro de 1979.
Segundo Vitor, os 15 meses entre a criação legal e o início das atividades foram necessários. Esse período serviu para estruturar a administração pública e organizar o funcionamento das instituições. O historiador destacou que a divisão atendia a interesses internos e nacionais.
Entre as demandas locais, estavam a ampliação da presença administrativa e o fortalecimento do desenvolvimento econômico. No cenário nacional, o governo militar considerava estratégica a ocupação e a defesa das regiões de fronteira.
Mistura de culturas
A diversidade cultural é uma característica central na formação de Mato Grosso do Sul. A presença de povos indígenas, comunidades tradicionais e migrantes de diferentes regiões do Brasil contribuiu para uma identidade própria. Essa identidade é marcada pela combinação de influências variadas.
Para Vitor, a ideia de que o estado não possui uma cultura própria desconsidera justamente o que torna sua identidade singular. “Demorei anos pra ter o entendimento que eu tenho hoje, mas eu começo a perceber que é justamente essa fusão de uma porrada de outras culturas que nos transformam numa coisa tão única”, explicou.
A influência paraguaia aparece em elementos como a sopa paraguaia e o chamamé. Já as contribuições de paraguaios, bolivianos, paulistas, mineiros, paranaenses e gaúchos estão presentes nos costumes e tradições de diferentes municípios. Essa diversidade ultrapassa as manifestações culturais e alcança a economia.
Segundo o historiador, a chegada de migrantes ajudou a transformar a produção agropecuária do Estado. Antes, a atividade era mais concentrada na pecuária. “Os sulistas trouxeram o plantio da soja pra gente, a mecanização da nossa agroindústria. Então, essas influências são múltiplas e são muito diversas. Estão em todos os aspectos”, pontuou.
A presença de pessoas vindas de outras regiões do Brasil e de outros países também faz parte da história das famílias sul-mato-grossenses. O próprio historiador citou suas origens familiares como exemplo dessa diversidade. Ele tem parentes ligados a São Paulo, ao Nordeste e à imigração italiana, além de uma ancestral indígena.
Para ele, a identidade regional não depende exclusivamente do local de nascimento. Ela também se constrói pelos vínculos estabelecidos com o território e com a população. O historiador propôs uma reflexão sobre a origem das famílias que vivem no Estado. Muitas delas têm pais, avós ou bisavós nascidos em outras regiões.








