Um homem de 77 anos foi retirado de casa pelo Corpo de Bombeiros na noite de sexta-feira (2), em Paranaíba, Mato Grosso do Sul, com sinais de desnutrição, desidratação e múltiplas feridas expostas. A ocorrência, registrada por volta das 19h30, mobilizou também a Polícia Militar, que passou a apurar suspeita de maus-tratos e abandono contra pessoa idosa.
De acordo com o relato dos bombeiros, vizinhos acionaram a corporação depois de perceberem que o morador não respondia a chamados. A equipe encontrou o idoso sozinho no imóvel, localizado no Jardim Paineiras. O local apresentava acúmulo de lixo, forte odor, fezes espalhadas pelo ambiente e ausência de instalações sanitárias em condições de uso. Imagens registradas pelos militares confirmaram a falta de higiene e a insalubridade generalizada, consideradas incompatíveis com habitação humana.
Os socorristas relataram que o paciente, além de muito debilitado, tinha escoriações por todo o corpo e não conseguia se comunicar. Após os primeiros cuidados, ele foi conduzido para a Santa Casa do município. No hospital, a equipe médica classificou o quadro como gravíssimo, recomendando internação imediata em unidade de cuidados intensivos.
Informada sobre a ocorrência, a Polícia Militar deslocou-se até a Santa Casa para coletar dados preliminares. O idoso permanecia consciente, porém incapaz de falar ou responder a perguntas simples. Durante a permanência dos policiais, uma mulher apresentou-se como filha e alegou responsabilidade pelos cuidados do pai. Segundo seu depoimento, ela reside no mesmo endereço, mas teria dificuldade para acompanhar o homem por causa da jornada de trabalho.
Questionada sobre o motivo das condições encontradas, a familiar declarou não saber explicar a extensão do problema e afirmou que fazia o possível para assistir o idoso nos horários disponíveis. Ela não soube indicar quando havia sido o último atendimento médico nem a data da última refeição adequada fornecida ao pai.
Diante das informações colhidas, os policiais registraram boletim de ocorrência por eventual prática de maus-tratos, tipificada no Estatuto do Idoso. A filha foi formalmente comunicada sobre a abertura da investigação e declarou-se ciente dos procedimentos legais. O documento será encaminhado à Delegacia de Polícia Civil, responsável por ouvir testemunhas, analisar laudos médicos e avaliar a eventual necessidade de medidas protetivas ou responsabilização criminal.
O Corpo de Bombeiros enfatizou, em registro interno, que o imóvel não possuía energia elétrica adequada e apresentava infiltrações, aumentando o risco à saúde do morador. Não foram encontrados alimentos armazenados em condições de consumo, tampouco medicamentos ou documentos médicos recentes que indicassem acompanhamento profissional.
A Santa Casa informou que o paciente passa por reposição de líquidos, avaliação nutricional e tratamento para infecções originadas pelas feridas abertas. Ainda não há previsão de alta. A equipe multidisciplinar prepara relatório detalhado sobre o estado clínico, documento que será juntado ao inquérito policial.
Órgãos de assistência social do município foram acionados para verificar a possibilidade de guarda provisória ou encaminhamento a instituição de longa permanência, caso se confirme a incapacidade da família de prover cuidados mínimos. Segundo a Polícia Militar, a solicitação inclui avaliação psicológica da filha e eventual intervenção de programas de acolhimento.
Após a conclusão dos laudos médico e social, o Ministério Público deverá decidir sobre eventual oferecimento de denúncia. Se a investigação comprovar negligência, o responsável pode responder por crime de maus-tratos, cuja pena varia de dois meses a um ano de detenção, aumentada em um terço se resultar em lesão grave. Enquanto isso, o idoso permanece internado, sob acompanhamento constante de equipes de saúde.









