A Polícia Civil de Dourados, Mato Grosso do Sul, esclareceu as primeiras circunstâncias do assassinato do padre Alexsandro da Silva Lima, 44 anos, ocorrido na noite de sexta-feira, 14 de outubro. Em depoimento, Leanderson de Oliveira Júnior, 18 anos, admitiu ter matado o sacerdote dentro da residência do religioso e relatou que o crime foi precedido por um suposto abuso sexual. Segundo o jovem, ele foi forçado a praticar sexo oral antes de agredir a vítima com uma marreta e, em seguida, com uma faca.
O interrogatório aponta que Leanderson conheceu o padre por intermédio de um ex-cunhado. De acordo com a versão apresentada, o religioso se aproximava de estudantes na saída de escolas e oferecia pequenas quantias em dinheiro em troca de encontros, identificando-se apenas como “Alex”. O jovem declarou que esteve na casa do padre dois dias antes do crime e voltou ao local na sexta-feira já com intenção de roubar o Jeep Renegade e dinheiro guardado na residência.
O ataque, conforme o depoimento, começou no interior do imóvel quando os dois ficaram sozinhos. Leanderson afirmou ter encontrado a marreta em um cômodo e golpeado o padre, que tentou se defender. Em seguida, usou uma faca para atingir a cabeça e o pescoço da vítima. Após a morte, o suspeito tomou banho, recolheu objetos pessoais do padre e deixou a casa dirigindo o Renegade.
O inquérito indica que, logo depois, Leanderson buscou a namorada e passou a circular pela cidade com um amigo de 17 anos. Eles frequentaram lojas de conveniência e, mais tarde, encontraram João Victor Martins Vieira, 18 anos. Segundo a polícia, o autor do homicídio contou a João o que havia ocorrido e o levou até o imóvel para mostrar o corpo.
Na madrugada de sábado, o grupo decidiu apagar vestígios e remover o cadáver. Duas adolescentes de 16 e 17 anos foram chamadas e ajudaram a limpar portas e móveis. Enquanto isso, João recolheu itens da casa, entre eles talheres, panelas, ventilador, bebidas e eletrodomésticos. O corpo foi enrolado em um tapete e colocado no porta-malas do Jeep. Os quatro ocuparam o banco dianteiro e seguiram até a Rua José Feliciano de Paiva, conhecida como Zé Tereré, onde abandonaram o cadáver às margens de uma área de mata.
Após a ocultação, os envolvidos retornaram à casa de João Victor, continuaram rodando pela cidade e realizaram nova limpeza no veículo. Na manhã de sábado, 15, eles pararam em um mercado, momento em que foram localizados pela Polícia Militar.
O desaparecimento do padre chamou a atenção depois que familiares tentaram contato e descobriram que o celular dele havia sido encontrado em um terreno próximo ao Instituto Federal de Mato Grosso do Sul. O aparelho foi identificado pelo símbolo religioso na capa. Testemunhas relataram que um Renegade circulava pela região à procura do telefone, informação repassada aos policiais. A partir desse dado, equipes abordaram o veículo, que estava com Leanderson, João e as duas adolescentes.
Enquanto os jovens eram detidos, peritos vasculhavam a casa do padre e encontravam manchas de sangue em diversos pontos. Confrontado com as evidências, Leanderson indicou o local onde o corpo fora deixado. O adolescente de 17 anos, também identificado, disse ter ido à residência após o homicídio, declarou que apenas limpou o rosto da vítima e negou participação na morte, mas admitiu ter conhecimento do plano de ficar com o carro.
Com base nos depoimentos, na recuperação do veículo e na apreensão de objetos furtados, o delegado responsável autuou Leanderson de Oliveira Júnior por latrocínio, ocultação de cadáver e fraude processual. João Victor Martins Vieira foi preso por furto, ocultação de cadáver e fraude processual. O adolescente de 17 anos foi apreendido por ato infracional equiparado a latrocínio, e as duas adolescentes, por atos infracionais equivalentes a furto, ocultação de cadáver e fraude processual. A polícia solicitou a conversão das prisões em preventivas e a manutenção das medidas socioeducativas para os menores.
Investigadores ainda analisam vestígios coletados na residência, no veículo e nos celulares apreendidos para definir o grau de envolvimento de cada suspeito. A principal linha de apuração segue sendo o latrocínio, já que, além do carro, diversos objetos foram retirados da casa.
A Arquidiocese de Dourados divulgou nota lamentando a morte violenta de Alexsandro da Silva Lima, que atuava na Paróquia Nossa Senhora Aparecida, em Douradina, e ocupava cargos de coordenação na Diocese e na Comissão Regional de Presbíteros do Regional Oeste I da CNBB. O sacerdote havia completado 44 anos um dia antes do crime e era ordenado desde 27 de agosto de 2011.
O assassinato ocorre cinco anos após outro episódio de violência contra o padre. Em 2018, ele foi rendido dentro de casa por um assaltante, agredido e teve um veículo Gol levado, recuperado posteriormente pela polícia. Três pessoas chegaram a ser presas naquela ocasião.
As investigações atuais prosseguem para esclarecer definitivamente a motivação, confirmar ou refutar a alegação de abuso sexual e detalhar a participação de cada um dos cinco jovens no homicídio, na ocultação do cadáver e no furto dos bens da vítima.









