O número global de estudantes matriculados no ensino superior mais que dobrou em pouco mais de duas décadas. De acordo com relatório da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), divulgado em Paris, o total passou de 100 milhões, em 2000, para 269 milhões em 2024. O documento, que compila informações de 146 países, indica uma expansão expressiva, porém marcada por profundas disparidades regionais, de gênero e de conclusão de curso.
A análise mostra que o crescimento das matrículas se concentrou, sobretudo, em regiões já dotadas de maior infraestrutura educacional. Nos países considerados mais desenvolvidos, cerca de 80% dos jovens em idade típica para o ensino superior estão vinculados a universidades ou institutos equivalentes. Em contraponto, na África Subsaariana o índice se limita a 9%, evidenciando a distância entre economias de alta e de baixa renda em relação ao acesso à educação terciária.
Outro dado relevante diz respeito ao avanço das instituições privadas. Atualmente, elas concentram aproximadamente um terço das matrículas mundiais, parcela que se eleva em nações latino-americanas, inclusive no Brasil. Esse movimento reflete tanto a ampliação da demanda por vagas quanto a capacidade limitada dos sistemas públicos de absorver o fluxo adicional de candidatos.
Embora mais estudantes estejam ingressando nas universidades, a taxa de conclusão não acompanhou o mesmo ritmo. O relatório sublinha que, em vários países, o percentual de concluintes cresce de forma sensivelmente mais lenta do que o de ingressantes, sugerindo desafios relacionados à permanência, ao financiamento estudantil e à qualidade dos cursos. Segundo a Unesco, ampliar o acesso sem garantir condições adequadas de progressão pode aprofundar desigualdades já existentes.
A mobilidade acadêmica internacional apresenta evolução semelhante. Desde 2000, o número de alunos que realizam parte ou todo o curso fora do país de origem triplicou. Ainda assim, essa categoria representa uma fração reduzida do total de matrículas globais, concentrando-se em estudantes com maior poder aquisitivo ou com acesso a programas de bolsas específicos. O documento observa que a possibilidade de estudar no exterior permanece limitada para a maior parte da população mundial.
O perfil de gênero também passou por mudanças substantivas. As mulheres constituem maioria no ensino superior global, ultrapassando os homens em termos de matrículas. Contudo, a participação feminina cai em níveis acadêmicos mais avançados, como mestrado e doutorado, e se reduz ainda mais em cargos de liderança universitária. A Unesco destaca esse contraste como um obstáculo à igualdade plena dentro do ambiente acadêmico.
Para o diretor-geral da organização, Khaled El-Enany, o cenário demonstra que o incremento numérico, por si só, não assegura oportunidades equitativas. Ele chama atenção para a necessidade de políticas que conciliem expansão com qualidade, financiamento sustentável e inclusão efetiva de grupos historicamente subrepresentados. Sem essas condições, há risco de perpetuar ou até acentuar as clivagens já identificadas pelo estudo.
O relatório menciona ainda desafios adicionais, como evolução tecnológica e mudanças no mercado de trabalho, que pressionam instituições a rever currículos, métodos de ensino e mecanismos de avaliação. A Unesco observa que, à medida que a demanda por competências complexas cresce, aumenta a responsabilidade das universidades de oferecer formação alinhada às exigências profissionais contemporâneas.
Entre as recomendações, figuram fortalecimento de sistemas públicos, criação de instrumentos de apoio financeiro para estudantes em situação de vulnerabilidade e estímulo a parcerias internacionais que promovam intercâmbio de conhecimento. A organização sugere, também, monitoramento constante dos indicadores de permanência e conclusão, a fim de identificar pontos críticos e direcionar recursos de maneira mais eficiente.
Concluindo, o estudo da Unesco retrata um sistema de ensino superior em rápida expansão, mas ainda permeado por disparidades regionais, econômicas e de gênero. O avanço no número de matrículas, embora significativo, impõe a autoridades, instituições e sociedade civil o desafio de transformar quantidade em qualidade e inclusão real, garantindo que a trajetória universitária resulte em benefícios efetivos para estudantes e comunidades em todo o mundo.








