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Em menos de duas semanas, duas onças-pintadas morrem atropeladas na BR-262 entre Miranda e Corumbá

Duas onças-pintadas foram encontradas mortas após colisões com veículos no trecho da BR-262 que liga Miranda a Corumbá, no Pantanal sul-mato-grossense. Os registros, separados por 17 dias, reforçam a preocupação de pesquisadores e organizações dedicadas à preservação da fauna sobre a vulnerabilidade de animais silvestres que utilizam a rodovia como rota de passagem.

Dois casos em sequência

O episódio mais recente ocorreu em 5 de maio. Um macho jovem-adulto foi localizado às margens da estrada depois de ser atingido por um automóvel. Antes disso, em 18 de abril, outra onça-pintada já havia sido encontrada sem vida na mesma rodovia, igualmente nas proximidades do km que conecta os dois municípios pantaneiros. Em ambos os casos, a principal hipótese é de atropelamento.

A curta diferença de tempo entre as ocorrências levou especialistas a classificar o segmento da BR-262 como possível ponto crítico para acidentes envolvendo grandes felinos. O trecho corta áreas de vegetação preservada, habitat natural de diversas espécies que transitam com frequência entre as margens em busca de alimento, água ou parceiros para reprodução.

Ameaça adicional à espécie

A onça-pintada (Panthera onca) é considerada espécie-símbolo do Pantanal e exerce papel fundamental no equilíbrio ecológico do bioma, atuando como predadora de topo de cadeia. Apesar de ocupar posição de destaque em programas de conservação, o felino enfrenta pressões causadas por perda de habitat, incêndios e, cada vez mais, colisões em rodovias que cortam áreas naturais.

De acordo com estudiosos da região, a morte de indivíduos jovens compromete o potencial reprodutivo da população local. Cada felino atropelado representa a perda de material genético valioso para a manutenção de grupos saudáveis e bem distribuídos no território.

Coleta de material biológico

Logo após o resgate do animal atropelado em 5 de maio, equipes especializadas realizaram a coleta de tecidos, fluidos e outras amostras biológicas. O material foi encaminhado a laboratórios parceiros, onde passa por processos de congelamento, cultivo celular e catalogação. O objetivo é compor biobancos com informações genéticas que possam subsidiar pesquisas futuras.

O médico-veterinário Gediendson Araujo, pesquisador do Instituto REPROCON, ressalta que conservar amostras atualmente aumenta as possibilidades de intervenção nos próximos anos. Segundo ele, embora técnicas como clonagem ainda não sejam aplicadas rotineiramente a onças-pintadas, preservar células viáveis pode viabilizar estratégias de reforço populacional, reprodução assistida ou estudos de variabilidade genética.

O REPROCON é uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP) que utiliza biotecnologias reprodutivas para apoiar a manutenção de espécies ameaçadas. A instituição colabora com universidades, centros de pesquisa e órgãos ambientais em iniciativas de criopreservação e banco de germoplasma.

Rodovia funciona como corredor de fauna

Para Araujo, o fato de dois atropelamentos terem acontecido em período tão curto evidencia que a rodovia serve de corredor natural para a passagem de animais. Ele afirma que, quando diferentes espécies utilizam a mesma rota em busca de recursos, o risco de colisões aumenta, especialmente em vias com tráfego intenso e velocidade elevada.

Estudos de ecologia de estrada apontam que áreas planas, presença de cursos d’água adjacentes e abundância de presas podem atrair felinos a cruzar o asfalto com frequência. Sem dispositivos específicos de mitigação, como passagens de fauna subterrâneas ou aéreas, cercas direcionadoras e sinalização reforçada, a probabilidade de acidentes permanece alta.

Necessidade de medidas preventivas

Pesquisadores e entidades de conservação defendem a adoção de um conjunto de ações para reduzir a mortalidade de fauna no Pantanal. Entre as recomendações estão:

instalação de radares e redutores de velocidade em pontos críticos;
implementação de passagens de fauna compatíveis com o porte de grandes mamíferos;
colocação de cerca direcionadora que conduza os animais às estruturas de travessia;
reforço de placas de advertência para motoristas, principalmente em períodos noturnos;
monitoramento contínuo para avaliação da eficácia das medidas adotadas.

Órgãos ambientais estaduais e federais analisam dados de atropelamentos na BR-262 para identificar trechos prioritários. O cruzamento de informações sobre velocidade média dos veículos, densidade de espécies e ocorrência de acidentes deve orientar intervenções futuras.

Pantanal: diversidade próxima ao asfalto

O Pantanal abriga uma das maiores concentrações de fauna de grande porte da América do Sul. Durante o período de cheias, animais procuram regiões mais altas, muitas vezes próximas às rodovias que cortam as planícies alagadas. Nas secas, a busca por água leva grupos a percorrer extensas distâncias, atravessando o asfalto repetidamente.

Enquanto estudos avançam e soluções são discutidas, a sequência de atropelamentos serve de alerta para o risco constante que recai sobre espécies emblemáticas do bioma. A mortalidade de onças-pintadas na BR-262 põe em evidência a urgência de integrar planejamento viário e conservação da biodiversidade em uma das regiões mais ricas em vida selvagem do país.

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