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Cheia de 2026 no Pantanal fica 1,2 m abaixo da média e prolonga período de seca

A planície do Pantanal inicia maio de 2026 com nível de inundação consideravelmente reduzido. Dados da estação fluviométrica de Ladário, referência para o comportamento hidrológico da região, indicam cota de 1,95 metro no Rio Paraguai, valor 1,20 metro inferior à mediana histórica de 3,18 metros para o período. O resultado confirma que o pulso de cheia gerado pela temporada chuvosa 2025/2026 não conseguiu recompor o déficit hídrico acumulado desde 2019.

Monitoramento por satélite entre outubro de 2025 e março de 2026 mostra que o volume de precipitação em toda a Bacia do Alto Paraguai (BAP), abrangendo Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, ficou de 10% a 12% abaixo da média de longo prazo. Além da quantidade reduzida, a chuva ocorreu de forma irregular: janeiro registrou estiagem severa, enquanto fevereiro concentrou parte dos acumulados, sem efeito suficiente para elevar de modo expressivo o nível dos rios.

Segundo pesquisadores da Embrapa Pantanal, a sequência de anos secos provocou um fenômeno conhecido como memória hidrológica. O solo, os aquíferos rasos e os canais internos permanecem desidratados e absorvem parcela relevante da chuva recente antes que haja escoamento superficial suficiente para alimentar a planície. Esse processo diminui a velocidade e a extensão da onda de cheia, limitando a expansão da lâmina d’água pelas vazantes, baías e matas ciliares.

Impactos sobre atividades econômicas e ecossistemas

A baixa intensidade da cheia afeta de maneira distinta os principais setores que dependem do pulso anual de inundação. A produção pesqueira, base para o turismo de pesca esportiva, é o segmento mais sensível. Sem a renovação das lagoas marginais, peixes jovens perdem áreas de abrigo e alimentação, reduzindo o potencial de reposição dos estoques após o período de piracema. A biodiversidade aquática também sofre, pois numerosos ciclos de vida estão associados ao avanço da água sobre a vegetação ribeirinha.

Na navegação de cargas, o cenário é estável. Apesar da cota abaixo da média, o calado mínimo ainda é mantido, preservando rotas de transporte de combustível, insumos agropecuários e produtos de mineração ao longo do Rio Paraguai. A continuidade da atividade, no entanto, depende de monitoramento diário; qualquer queda adicional poderá impor restrições à passagem de comboios maiores.

Para a pecuária bovina extensiva, tradicional no Pantanal, a situação se apresenta favorável. A ausência de enchentes mais altas evita a retirada emergencial dos rebanhos para áreas elevadas, reduzindo custos logísticos. Ao mesmo tempo, a lâmina moderada de água deixa o solo úmido o suficiente para estimular o broto das pastagens nativas, garantindo oferta de alimento de boa qualidade nas proximidades dos cursos d’água.

Perspectivas para o restante do ano

Com o pulso de cheias já configurado e a curva descendente prevista para os próximos meses, técnicos não esperam alteração significativa no quadro de restrição hídrica ao longo de 2026. A reposição de estoques subterrâneos permanece prioritária, o que limita novas inundações de grande porte até que o sistema volte ao equilíbrio. Para comunidades ribeirinhas e gestores ambientais, o desafio será conciliar demandas de abastecimento, conservação da fauna aquática e manutenção das atividades econômicas dependentes do ciclo hidrológico.

Instituições ligadas ao monitoramento do clima e dos recursos hídricos acompanham a evolução dos índices de chuva para o próximo período úmido, que tem início em outubro. Enquanto isso, recomenda-se planejamento antecipado das cadeias produtivas mais sensíveis, como turismo de pesca e manejo de estoque pesqueiro, visando mitigar impactos de uma eventual sequência de safras de água abaixo do padrão histórico.

Desde 2019, a Bacia do Alto Paraguai acumula sucessivos resultados negativos de armazenamento. A estação chuvosa 2025/2026 foi insuficiente para alterar o cenário, mantendo a cheia de 2026 1,2 metro abaixo da média e prolongando a seca que já dura sete anos. A situação reforça a importância de estratégias de adaptação e de vigilância permanente do regime hidrológico para preservar o equilíbrio socioambiental do Pantanal.