Pequenos criadores de Campo Grande conseguiram, pela primeira vez, enviar um lote conjunto de ovinos para abate industrial graças à implantação de uma Propriedade de Descanso de Ovinos para o Abate (PDOA). A novidade representa um avanço operacional para a agricultura familiar do município, que passa a contar com uma ferramenta capaz de reunir diferentes produções, atender exigências sanitárias e negociar volumes que, individualmente, seriam inviáveis.
Nesta etapa inicial, três produtores participaram do embarque, totalizando 12 animais encaminhados ao frigorífico Flor da Serra. Embora o número seja modesto, a operação inaugura um sistema que já possui cerca de 50 criadores cadastrados, prontos para utilizar a mesma estrutura nos próximos ciclos. O funcionamento coletivo elimina a dependência de grandes plantéis por parte de cada produtor e abre caminho para a formalização de vendas regulares.
A lógica do modelo é simples: os animais chegam à PDOA, passam por triagem sanitária, são pesados, identificados e agrupados em lotes padronizados. Após essa etapa, seguem juntos ao frigorífico em condições adequadas de transporte e em conformidade com as normas de bem-estar animal. Ao concentrar os processos de preparação em um único ponto, o sistema reduz custos individuais, garante rastreabilidade e assegura que todos os ovinos atendam aos mesmos parâmetros de qualidade exigidos pelo mercado formal.
Historicamente, a ovinocultura local esbarrava na dificuldade de escala. Produtores familiares mantêm criações reduzidas, muitas vezes inferiores a 20 cabeças, o que impede a composição de cargas mínimas para abatedouros. Sem volume, esses criadores ficavam restritos a comercialização informal ou a preços menos competitivos. A PDOA rompe essa barreira ao transformar múltiplas criações dispersas em uma oferta conjunta, aumentando o poder de negociação diante dos compradores e garantindo pagamentos unificados.
Outro ponto relevante é o controle sanitário. Ao centralizar exames e vistorias, a nova estrutura reduz riscos de contaminação, eleva a confiança dos frigoríficos e habilita os produtores a acessar mercados que exigem regularidade de fornecimento, laudos de procedência e certificações específicas. A formalização do processo também permite que os criadores emitam notas fiscais e se enquadrem em programas de fomento governamentais, ampliando oportunidades de crédito e assistência técnica.
Para a Secretaria Municipal de Agricultura, Desenvolvimento Econômico e Social (Semades), o impacto vai além da logística. A concentração de embarques fortalece a cadeia produtiva regional, estimula a profissionalização das propriedades e cria perspectivas de aumento de renda no campo. A expectativa da pasta é que, à medida que mais agricultores se integrem ao sistema, sejam gerados novos postos de trabalho em atividades como transporte, manejo e comercialização de insumos.
O projeto também favorece a disseminação de boas práticas de manejo. Ao participar da PDOA, o produtor recebe orientações sobre alimentação, sanidade e seleção genética, alinhadas aos padrões requeridos pelo frigorífico. Esse acompanhamento técnico tende a elevar a produtividade média dos rebanhos, reduzir perdas e padronizar a carcaça, fatores essenciais para conquistar mercados internos e, futuramente, regionais.
Com a estrutura em operação, o próximo passo é escalar o modelo. A previsão é aumentar a frequência dos embarques e, conforme a adesão cresce, ampliar a capacidade de alojamento de ovinos na propriedade de descanso. Caso o ritmo se mantenha, a iniciativa pode modificar de forma permanente a dinâmica da ovinocultura na região de Campo Grande, tornando sustentáveis as criações familiares e consolidando um canal de comercialização contínuo que antes dependia de esforços isolados.








