O agronegócio de Mato Grosso do Sul acompanha com atenção as discussões em Bruxelas sobre novas exigências para a importação de proteínas animais. Embora reconheça o risco de restrições, o segmento avalia que a interlocução conduzida pelo Ministério da Agricultura e Pecuária, em conjunto com entidades de classe, pode limitar eventuais prejuízos a produtores e exportadores brasileiros.
Responsável por representar 68 sindicatos rurais no Estado, a Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul (Famasul) avalia que ainda há margem para entendimento entre as partes. O presidente da entidade, Marcelo Bertoni, informou que reuniões técnicas têm ocorrido desde o anúncio das medidas europeias, buscando adaptar processos produtivos às novas exigências sanitárias e ambientais sem comprometer a competitividade nacional.
Segundo Bertoni, uma das propostas apresentadas ao bloco é que qualquer regra adicional seja aplicada de forma segmentada, respeitando especificidades de cada cadeia. A sugestão considera diferenças no tempo de produção: frangos e suínos completam o ciclo em poucos meses, enquanto a pecuária de corte trabalha com prazos que podem chegar a três anos. De acordo com o dirigente, a distinção permitiria ajustes operacionais mais rápidos em setores de ciclo curto, evitando que todo o conjunto de proteínas seja afetado de maneira uniforme.
O Ministério da Agricultura, a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e representantes dos frigoríficos participam das negociações. A estratégia é apresentar dados técnicos sobre rastreabilidade, bem-estar animal e sustentabilidade para demonstrar conformidade dos produtos brasileiros com padrões internacionais. Paralelamente, a equipe do ministério monitora outros parceiros comerciais para diversificar destinos caso haja redução de compras europeias.
Apesar da incerteza, a Famasul não projeta impacto expressivo na economia sul-mato-grossense. Dados internos da entidade indicam que o Estado possui diversos frigoríficos habilitados a vender para a União Europeia, porém o volume efetivamente embarcado representa parcela restrita da pauta de exportações. Bertoni lembra que as cotas específicas para carne bovina nem sempre são preenchidas na totalidade, o que reduz a dependência direta daquele mercado.
Empresas instaladas na região, segundo o dirigente, já passaram por cenários semelhantes e costumam reagir com ajustes de rota e prospecção de novos compradores. A experiência em logística internacional e a presença em diferentes continentes são apontadas como ferramentas para manter o ritmo de vendas externas, mesmo diante de barreiras pontuais. Caso necessário, lotes destinados à Europa podem ser redirecionados para países asiáticos, do Oriente Médio ou da América do Norte, conforme a viabilidade comercial de cada contrato.
Sobre a possibilidade de a carne que deixaria de seguir para a União Europeia abastecer o mercado interno, a Famasul esclarece que a decisão cabe às empresas exportadoras. O cálculo envolve preços globais, demanda doméstica e custos de transporte. Portanto, ainda não há estimativa concreta de impacto nos valores pagos ao produtor ou no preço final ao consumidor brasileiro.
Além do monitoramento das tratativas em Bruxelas, o setor acompanha mudanças anunciadas pelo governo dos Estados Unidos na política tarifária para produtos agropecuários. Em um ambiente internacional sujeito a novas exigências fitossanitárias e discussões sobre emissões de carbono, Bertoni defende a manutenção de canais diplomáticos antes da adoção de medidas de reciprocidade. Para o dirigente, o Brasil dispõe de instrumentos de diálogo que podem evitar escaladas comerciais.
Enquanto as negociações avançam, produtores mantêm o planejamento de safra e seguem protocolos de qualidade já exigidos por certificações internacionais. A Famasul afirma que o foco imediato é fornecer informações técnicas e reunir documentos que comprovem boas práticas ambientais, condição considerada essencial para reforçar a imagem brasileira no exterior e preservar margens de mercado.
Nos próximos meses, representantes das cadeias de aves, suínos e bovinos devem participar de missões oficiais à Europa. O objetivo é detalhar processos de produção, esclarecer dúvidas sobre rastreabilidade e ajustar eventuais lacunas identificadas durante auditorias. A federação entende que a transparência na comunicação e a apresentação de resultados concretos em sustentabilidade podem ser decisivas para manter as portas abertas no mercado europeu.
Com o início da temporada de discussão orçamentária no bloco europeu e a proximidade de revisões normativas, o setor produtivo sul-mato-grossense pretende intensificar a troca de informações com Brasília. A prioridade, reforça a Famasul, é garantir que qualquer mudança regulatória seja acompanhada de prazos adequados de transição, evitando rupturas na cadeia e preservando empregos ligados às atividades pecuárias.
Embora o panorama dependa de avanços diplomáticos, a federação avalia que o histórico de cooperação técnica entre Brasil e União Europeia oferece base para um entendimento que limite danos ao comércio bilateral. Até que haja definição, produtores mantêm postura de cautela, mas sustentam a confiança em um acordo capaz de conciliar exigências sanitárias, interesses ambientais e a necessidade de continuidade dos fluxos de exportação.








