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Super El Niño deve encarecer cesta básica e aumentar pressão inflacionária, apontam projeções

O retorno do fenômeno El Niño, previsto para ocorrer com intensidade de moderada a forte entre outubro e dezembro, tende a provocar impactos relevantes na economia brasileira, sobretudo no agronegócio de Mato Grosso do Sul. A avaliação é do economista Hudson Garcia, que projeta reflexos diretos sobre a produção agrícola, o preço dos alimentos e o comportamento da inflação.

De acordo com estimativa da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), há probabilidade superior a 90% de formação do evento climático ainda neste ano. O deslocamento anômalo das massas de ar altera o regime de chuvas, favorecendo precipitações intensas no Sul e estiagens prolongadas nas demais regiões. Esse quadro, segundo o economista, coloca em risco a produtividade de culturas essenciais para a alimentação do país.

Levantamento realizado por Garcia indica que 22% dos itens que compõem a cesta básica são diretamente relacionados a produtos vulneráveis ao El Niño. Em um cenário de colheitas menores ou de grãos com qualidade inferior, a tendência é de reajuste nos preços ao consumidor. Tomando como referência episódio semelhante registrado em 2015, o especialista calcula que a inflação dos alimentos pode alcançar 8,68%, com determinados artigos apresentando elevações superiores a 20%.

Entre as culturas mais sensíveis estão arroz, trigo, hortaliças e frutas cultivadas predominantemente na Região Sul. Já em Mato Grosso do Sul, os maiores efeitos devem recair sobre as lavouras de milho, soja e cana-de-açúcar, que respondem por parcela expressiva da renda agrícola estadual. A expectativa de produção reduzida nesses segmentos acende sinal de alerta em todo o mercado, visto que o estado figura entre os principais fornecedores de matéria-prima para as cadeias de proteína animal e de biocombustíveis.

A disponibilidade de grãos influencia diretamente os custos da pecuária. Menor oferta de milho e soja, insumos básicos na formulação de rações, tende a encarecer a engorda de bovinos, suínos e aves. “O efeito não fica restrito às lavouras; o encarecimento da alimentação dos rebanhos costuma ser repassado ao consumidor na forma de carnes mais caras”, observa Garcia. O raciocínio se aplica ainda aos laticínios, que dependem de custos controlados na criação de gado leiteiro.

Antecipando possíveis perdas de produtividade, produtores rurais já adaptam o planejamento da próxima safra. Parte dos agricultores de Mato Grosso do Sul substitui áreas que seriam destinadas ao milho por sorgo, cultura reconhecida pela maior tolerância a períodos de estiagem. A troca busca garantir pelo menos uma colheita de grãos, preservando receita e reduzindo os riscos financeiros associados ao clima adverso.

O economista reforça que a adoção de tecnologias de monitoramento climático, sistemas de irrigação eficientes e análise de dados em tempo real será decisiva para mitigar prejuízos. Ferramentas de sensoriamento remoto, estações meteorológicas e modelos preditivos auxiliam na identificação de momentos ideais para plantio, aplicação de insumos e colheita. “Não é possível evitar o El Niño, mas é viável tomar decisões embasadas em viabilidade econômica e reduzir a exposição ao fenômeno”, pontua.

Além dos impactos imediatos sobre a produção primária, o encarecimento dos alimentos pode pressionar a política monetária. Alta nos preços da cesta básica costuma ter peso significativo no índice de inflação oficial, exigindo atenção do Banco Central em relação às metas anuais. A elevação dos custos para o consumidor também reduz o poder de compra das famílias, afetando o comércio e outros setores dependentes do consumo interno.

No curto prazo, o acompanhamento do comportamento climático nas próximas semanas será determinante para ajustar projeções de safra e de preços. Enquanto a confirmação do fenômeno ganha força, agentes públicos e privados analisam cenários para traçar estratégias de abastecimento e evitar oscilações bruscas na oferta de alimentos. Programas de seguro rural, linhas de crédito emergenciais e incentivos à diversificação de culturas estão entre as medidas em discussão para suavizar o impacto econômico do El Niño.

As repercussões do fenômeno deverão ser sentidas de forma mais aguda entre o último trimestre deste ano e o início do próximo, período que coincide com etapas críticas do ciclo produtivo de várias culturas. Caso se confirme a intensidade prevista, o “Super El Niño” poderá redefinir as estimativas de colheita, influenciar a formação de preços ao longo de 2024 e exigir capacidade de adaptação por parte de produtores, indústria e consumidores em todo o país.