A ocupação de propriedades rurais em Sidrolândia, município localizado a 70 quilômetros de Campo Grande, ganhou repercussão política nesta segunda-feira (15). Em nota encaminhada à imprensa, a assessoria do deputado estadual Zeca do PT afirmou que a ação foi conduzida por Rodrigues Alcântara, secretário de Assuntos Indígenas de Dois Irmãos do Buriti e integrante, segundo o parlamentar, de um grupo indígena alinhado a forças políticas de direita em Mato Grosso do Sul.
De acordo com o comunicado, outras lideranças da Terra Indígena Buriti não teriam sido consultadas antes da ocupação, realizada no fim de semana em áreas rurais reivindicadas pela comunidade. A assessoria informou ainda que uma reunião foi convocada para a tarde desta segunda-feira, na Câmara Municipal de Sidrolândia, com o objetivo de esclarecer os desdobramentos do episódio e discutir possíveis encaminhamentos.
O texto divulgado pelo gabinete de Zeca do PT sustenta que Alcântara e seus aliados manifestam apoio público às pré-candidaturas do ex-governador Reinaldo Azambuja, da ex-secretária de Cidadania Viviane Luiza e do ex-prefeito de Aquidauana Odilon Ribeiro, todos filiados a legendas situadas à direita do espectro político. Para o deputado, a vinculação desses nomes indica que o movimento em Sidrolândia tem motivações que extrapolam a pauta fundiária.
A nota surge pouco mais de um mês depois de Zeca do PT ter encaminhado ofício ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva questionando a conduta do ministro dos Povos Indígenas, Eloy Terena. No documento, o parlamentar criticou a aproximação do ministro com lideranças ligadas ao governador Eduardo Riedel e a setores descritos como “bolsonaristas”. Zeca sustentou no ofício que a postura de Terena representaria “grave incoerência” em relação ao projeto político do governo federal.
Entre as pessoas mencionadas no posicionamento de Zeca está o ex-prefeito de Aquidauana, Odilon Ribeiro. Contatado pela reportagem, Ribeiro declarou lamentar o conflito em Sidrolândia e disse não conhecer Rodrigues Alcântara. Pré-candidato a deputado estadual pelo PL e produtor rural, ele argumentou que disputas territoriais devem ser solucionadas por meio do diálogo e dentro da legalidade. “Os produtores veem seu patrimônio danificado e os indígenas continuam sem definição sobre suas terras; todos perdem”, afirmou, negando qualquer envolvimento no episódio.
Segundo informações da Polícia Militar, a ocupação ocorreu entre sábado e domingo em áreas das fazendas da região, incluindo a São Sebastião. Durante a ação, foram registrados danos a máquinas agrícolas, furto de insumos, focos de incêndio e derrubada de árvores, utilizadas como barricadas em pontos de acesso. Relatos de produtores indicam também a paralisação temporária de atividades de colheita e de preparo do solo.
As negociações para a desocupação foram conduzidas por representantes da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e do Ministério dos Povos Indígenas. Após tratativas, os participantes do movimento deixaram as propriedades ainda no domingo. Não houve confronto físico grave, de acordo com a PM, mas o levantamento de prejuízos materiais segue em andamento.
Órgãos federais, autoridades estaduais, entidades do agronegócio e lideranças indígenas continuam acompanhando a situação. A Funai informou que mantém diálogo com os envolvidos para evitar novos atos de ocupação e buscar soluções para as reivindicações territoriais da comunidade Buriti. Já a Secretaria de Justiça e Segurança Pública do estado comunicou que reforçou o policiamento preventivo na região.
A Terra Indígena Buriti, localizada entre os municípios de Sidrolândia e Dois Irmãos do Buriti, aguarda conclusão de processos demarcatórios há décadas. Produtores instalados em áreas sobrepostas ao território tradicional contestam a desapropriação e reivindicam indenizações integrais pelas benfeitorias e pelas terras. O impasse jurídico tem resultado em tensões recorrentes, que se intensificam em períodos de colheita ou de definição de calendários políticos.
A Câmara Municipal de Sidrolândia, palco da reunião marcada para esta segunda-feira, confirmou presença de representantes da Funai, do Ministério dos Povos Indígenas, de sindicatos rurais e de lideranças da Terra Indígena Buriti. O objetivo, segundo a convocação, é colher informações, avaliar danos e articular medidas de curto prazo que reduzam o risco de novas ocupações.
Até o momento, Rodrigues Alcântara não se pronunciou publicamente sobre as acusações de Zeca do PT. A Prefeitura de Dois Irmãos do Buriti, consultada sobre o envolvimento de seu secretário, informou apenas que aguarda apuração oficial dos fatos antes de adotar qualquer posicionamento. A assessoria do deputado reiterou que divulgará novos detalhes à medida que receber relatos de moradores, produtores e lideranças indígenas.
O episódio em Sidrolândia soma-se a outros focos de tensão fundiária registrados em Mato Grosso do Sul nos últimos anos. Entidades agrícolas cobram celeridade na definição dos processos demarcatórios, enquanto organizações indígenas destacam a necessidade de garantir a posse tradicional às comunidades. As discussões também refletem no cenário eleitoral estadual, no qual alianças e divergências sobre a questão agrária têm influenciado estratégias de candidaturas.
Com a desocupação concluída e a reunião agendada, as partes envolvidas aguardam os próximos passos dos órgãos competentes. Relatórios técnicos sobre os danos materiais e sobre a condução da negociação devem ser encaminhados ao Ministério Público Federal, que acompanha as investigações relativas à Terra Indígena Buriti.









