O balanço mundial de açúcar deverá passar de um excedente para um déficit de 1,7 milhão de toneladas no ciclo 2026/27, período que compreende outubro de 2026 a setembro de 2027. A virada decorre da combinação entre recuo na produção, avanço constante do consumo e restrições climáticas em alguns dos principais polos produtores.
Produção recua enquanto consumo segue em alta
Projeções de mercado indicam que a produção global cairá de 196,3 milhões para 192,6 milhões de toneladas na próxima temporada, redução de 3,7 milhões de toneladas. Na contramão, a demanda deve aumentar 0,5 %, alcançando 194,3 milhões de toneladas. O desequilíbrio resulta em déficit estimado de 1,7 milhão de toneladas, revertendo a sobra de 2,94 milhões de toneladas prevista para 2025/26.
Europa perde 15,3 % da safra
Na União Europeia e no Reino Unido, ondas de calor e falta prolongada de chuvas atingiram as lavouras de beterraba açucareira, sobretudo no norte da França e no sul da Alemanha. O volume produzido pelo bloco deve encolher 15,3 %, para 15 milhões de toneladas, obrigando a região a recorrer a importações adicionais e adicionando pressão ao mercado internacional.
Queda expressiva na Ásia
O impacto climático também afeta importantes fornecedores asiáticos:
- Índia: chuvas de monções abaixo da média em Maharashtra e Karnataka devem limitar a produção a 27,9 milhões de toneladas de açúcar branco. Com foco no controle da inflação interna, o governo tende a priorizar o abastecimento doméstico e suspender exportações.
- Tailândia: a persistência do fenômeno El Niño mantém o país sob seca, reduzindo a safra para 10,2 milhões de toneladas. A capacidade de exportação cairá de 8,5 milhões para 7,3 milhões de toneladas.
- China: o país colheu cerca de 13 milhões de toneladas em 2025/26 e deve manter produção estável em 12,9 milhões em 2026/27, situação que oferece relativa segurança ao mercado interno chinês.
Brasil assume papel central, mas enfrenta limitações
Com recuos na Europa e na Ásia, a dependência internacional do açúcar brasileiro cresce. A estimativa para a safra 2026/27 aponta 43,8 milhões de toneladas, avanço anual de 5,2 %. O incremento é favorecido por preços externos mais atrativos que o etanol para as usinas nacionais.
Apesar da expansão, gargalos operacionais e restrições logísticas nos portos impedem aumento mais acelerado da oferta. Esses entraves reduzem a capacidade de o país compensar, em ritmo maior, a falta de produto de outros fornecedores.

Imagem: Divulgação
Ponto de inflexão previsto para 2027
Embora os estoques gerados na safra atual ainda tragam certo alívio ao comércio internacional até o segundo semestre de 2026, analistas projetam mudança significativa a partir do primeiro trimestre de 2027. Nesse período, menor volume exportado pela Tailândia, aumento das importações europeias e limites logísticos brasileiros devem criar gargalos nas rotas globais.
Sem alívio de oferta, as cotações tendem a se elevar. A intensidade da alta poderá ser moderada caso a China utilize reservas estratégicas para suprir seu próprio mercado, adiando compras externas e reduzindo a pressão internacional.
Números centrais para 2026/27
- Produção mundial: 192,6 milhões de toneladas (–1,9 %).
- Consumo mundial: 194,3 milhões de toneladas (+0,5 %).
- Déficit global: 1,7 milhão de toneladas.
- Brasil: 43,8 milhões de toneladas (+5,2 %).
- União Europeia + Reino Unido: 15 milhões de toneladas (–15,3 %).
- Índia: 27,9 milhões de toneladas; exportações devem ser zeradas.
- Tailândia: 10,2 milhões de toneladas; exportações de 7,3 milhões.
- China: 12,9 milhões de toneladas; produção estável.
Com a oferta global ajustada e a demanda em trajetória ascendente, o mercado de açúcar entra em 2026/27 mais suscetível a variações climáticas e a limitações de infraestrutura. A capacidade de resposta dos principais produtores, especialmente do Brasil, e o eventual uso de estoques estratégicos pela China serão determinantes para a formação de preços e para o equilíbrio do abastecimento mundial nos próximos trimestres.








