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Fim da escala 6×1 exige ajustes para conciliar saúde do trabalhador e manutenção de postos, afirma sindicalista

O debate sobre a extinção da escala 6×1 — regime que prevê seis dias de trabalho para um de descanso — ganhou novo fôlego após avaliação do presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Condomínios e Imobiliárias de Mato Grosso do Sul (Secorciti-MS), Marcos Roberto Campos de Souza. Em entrevista ao programa Microfone Aberto, da Rádio Massa FM Campo Grande, o dirigente considerou a proposta um passo relevante para melhorar a qualidade de vida dos empregados, mas alertou para a necessidade de ajustes a fim de evitar repercussões negativas no mercado de trabalho, sobretudo no segmento condominial.

Segundo o sindicalista, qualquer alteração na legislação deve priorizar a saúde física e mental dos profissionais. Ele argumentou que jornadas mais curtas tendem a proporcionar maior tempo de convivência familiar e períodos adequados de descanso, fatores que contribuem para redução do estresse ocupacional e prevenção de adoecimentos relacionados ao trabalho.

Marcos Roberto comparou a atual discussão às transformações incorporadas ao ordenamento nas últimas décadas, citando a instituição do 13º salário como exemplo de mudança inicialmente contestada, mas hoje consolidada. Para ele, a possibilidade de rever a escala 6×1 segue a mesma lógica histórica: aperfeiçoar as relações laborais sem comprometer a sustentabilidade das empresas.

O dirigente destacou ainda que o modelo em vigor afeta de forma direta trabalhadores que acumulam responsabilidades familiares. Ele apontou o caso de mães solo que atuam de segunda a sábado e utilizam o domingo para tarefas domésticas, sem tempo efetivo para lazer ou recuperação física. Na visão do sindicato, esse padrão compromete a saúde de longo prazo e influencia indicadores de produtividade.

No setor condominial, porteiros, controladores de acesso e zeladores costumam operar em revezamentos variados — jornadas de seis ou oito horas e escalas de 12 por 36 são práticas comuns. Marcos Roberto avaliou que, se a revogação do 6×1 não for acompanhada de regras claras, condomínios podem optar por ampliar o uso de turnos de 12 horas. Ele argumentou que submeter o profissional a meio dia ininterrupto de vigilância e atendimento de conflitos não alcança o objetivo de diminuir o desgaste mental.

Outro ponto de atenção levantado pelo presidente do Secorciti-MS é o possível incentivo à automação. Sistemas de controle de acesso sem intervenção humana já se expandem em diferentes regiões do país e, segundo o representante sindical, tendem a avançar mais rapidamente caso as mudanças gerem aumento de custos sem contrapartidas. Ele teme que a substituição de trabalhadores por tecnologia agrave o desemprego no ramo condominial.

Durante a entrevista, Marcos Roberto relacionou o debate à Norma Regulamentadora nº 1, que amplia a abordagem de riscos psicossociais no ambiente de trabalho. A diretriz enfatiza a importância de prevenir doenças ligadas ao estresse, reforçando a necessidade de jornadas equilibradas e suporte adequado aos empregados.

Apesar das ressalvas, o presidente do sindicato considera o projeto em tramitação no Congresso Nacional uma oportunidade de modernizar as relações trabalhistas brasileiras. Ele defende a continuidade das discussões e a construção de um texto que assegure tanto a proteção do trabalhador quanto a viabilidade econômica das empresas.

Para o Secorciti-MS, o avanço da proposta depende de um modelo que contemple medidas compensatórias, mecanismos de transição e incentivos à manutenção de postos, evitando que a redução de horas resulte em cortes de pessoal ou sobrecarga em regimes diferenciados. “A prioridade é garantir descanso, preservar a saúde e, ao mesmo tempo, manter os empregos”, resumiu o dirigente, reforçando que a conciliação desses interesses deve orientar as próximas etapas do debate parlamentar.

O assunto permanece na pauta de diferentes entidades patronais e de representação trabalhista, que acompanham a tramitação legislativa em Brasília. Enquanto não há definição sobre eventuais alterações na Consolidação das Leis do Trabalho, sindicatos e empresas avaliam os possíveis impactos operacionais, financeiros e sociais de cada cenário projetado.

Até que o Congresso conclua a análise, Marcos Roberto indica que o Secorciti-MS seguirá participando de audiências públicas, reuniões técnicas e fóruns setoriais, buscando assegurar que a voz dos trabalhadores do setor condominial seja considerada em todas as etapas do processo. A expectativa do sindicato é que o texto final ofereça equilíbrio entre competitividade empresarial e condições dignas de labor, estabelecendo uma transição segura para qualquer novo regime que venha a substituir a escala 6×1.