Campo Grande (MS) – Dois anos após a disputa eleitoral que manteve Adriane Lopes (PP) na Prefeitura da capital sul-mato-grossense, a Polícia Federal deflagrou, na manhã desta sexta-feira (19), a Operação Suffragium, destinada a aprofundar indícios de compra de votos durante o pleito municipal de 2024.
Decisão judicial e alvos da operação
A ação foi autorizada pelo Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso do Sul (TRE-MS) e prevê o cumprimento de sete mandados de busca e apreensão em endereços residenciais e comerciais. Os locais vistoriados ficam em Campo Grande e no município de Taquarussu, no interior do Estado. Os mandados buscam coletar documentos, dispositivos eletrônicos e quaisquer registros que possam comprovar a existência de um esquema voltado ao aliciamento de eleitores.
Movimentações financeiras sob suspeita
Conforme a investigação, foram detectadas movimentações financeiras consideradas atípicas durante o período de campanha. Entre as operações identificadas estão saques expressivos em espécie, transferências fracionadas via Pix e utilização de contas bancárias em nome de terceiros. De acordo com os investigadores, essas transações ocorreram em datas próximas ao primeiro e ao segundo turnos e podem ter sido usadas para distribuir recursos com finalidade de influenciar o voto.
A PF trabalha com a hipótese de que os valores teriam sido repassados a cabos eleitorais ou diretamente a eleitores, prática que caracteriza o crime de corrupção eleitoral. As apurações também verificam possível falsidade ideológica eleitoral, relacionada a eventuais declarações omissas ou divergentes na prestação de contas de campanha.
Crimes em análise
Os fatos investigados enquadram-se, em tese, nos artigos que tratam de corrupção eleitoral, cuja pena prevê reclusão de até quatro anos e pagamento de multa, e de falsidade ideológica eleitoral, que pode levar a até cinco anos de prisão. Como o inquérito tramita sob sigilo judicial, a Polícia Federal não divulgou nomes de investigados nem detalhou quais pessoas físicas ou jurídicas podem estar envolvidas no suposto esquema.
Reeleição no segundo turno
O desdobramento ocorre após o segundo turno das eleições municipais de 2024, quando Adriane Lopes garantiu a permanência no cargo. Em menos de uma hora de apuração, com 98 % das seções totalizadas, o Tribunal Superior Eleitoral já apontava vitória matemática da candidata do Progressistas. Ao final da contagem, ela somou 51,45 % dos votos válidos (222.699 votos), ante 48,55 % (210.112 votos) obtidos por Rose Modesto (União). A diferença final ficou em 12.587 votos.
A disputa foi marcada por intensa polarização local, e eventuais irregularidades tornaram-se objeto de representações protocoladas por coligações adversárias logo após o resultado. O TRE-MS determinou a abertura de procedimento investigatório, que acabou remetido à Polícia Federal. As diligências iniciais começaram ainda em 2024, mas o avanço nas quebras de sigilo bancário e fiscal só ocorreu neste ano, culminando na operação desta sexta-feira.
Próximos passos
Com a execução dos mandados, peritos federais irão examinar extratos, comprovantes de depósito, agendas e aparelhos eletrônicos apreendidos para rastrear a origem e o destino do dinheiro sob suspeita. Caso sejam confirmados repasses a eleitores, os investigados poderão responder também por associação criminosa e lavagem de dinheiro, a depender das evidências reunidas.
O cronograma de depoimentos ainda não foi divulgado. Investigadores pretendem ouvir coordenadores de campanha, doadores, intermediários financeiros e eleitores citados nas transações. Não há, por ora, pedido de prisão preventiva ou de medidas cautelares contra agentes públicos.
Silêncio da Prefeitura
A reportagem procurou a assessoria da prefeita Adriane Lopes para comentar o assunto. Até a publicação deste texto, o gabinete não encaminhou posicionamento sobre a Operação Suffragium.
A Polícia Federal reforçou que as apurações prosseguem de forma sigilosa e que novas fases da operação podem ocorrer conforme o material recolhido seja analisado. O TRE-MS acompanha o inquérito e poderá tomar medidas adicionais no âmbito da Justiça Eleitoral caso surjam provas que justifiquem ação judicial contra envolvidos.









