A preocupação com o avanço da dependência química e seus impactos na vida familiar será tema de debate em Dourados nesta quinta-feira, 25, durante o encontro “Dependência Química: Prevenção, Proteção e Recomeço”, promovido pelo Conselho Municipal Antidrogas (Comad). A iniciativa, marcada para ocorrer das 8h às 12h na sede da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) do município, pretende reunir profissionais da saúde, educadores, lideranças comunitárias e demais interessados em discutir estratégias de enfrentamento ao uso de substâncias psicoativas.
Um dos palestrantes confirmados é o psicólogo e especialista em saúde mental Renan Pretti, que atua há mais de 13 anos no acompanhamento de pessoas em processo de recuperação. Em entrevista veiculada pela Massa FM, o profissional destacou que o fenômeno da dependência extrapola o consumo de drogas ilícitas e inclui comportamentos compulsivos associados ao álcool, tabaco, jogos de aposta on-line, pornografia e outras práticas capazes de comprometer a saúde mental, os relacionamentos e o desempenho social.
Alcance da dependência e danos familiares
Pretti relatou ter acompanhado inúmeros casos em que o vício provocou desestruturação familiar, prejuízos financeiros e conflitos recorrentes. Segundo o psicólogo, o problema não se restringe ao indivíduo que consome a substância ou adota o comportamento compulsivo; todos os membros do núcleo familiar acabam expostos a tensões emocionais, dificuldades de comunicação e, em muitos casos, episódios de violência doméstica. Para ele, o acolhimento ao usuário e a oferta de informação a parentes e amigos são etapas essenciais para qualquer projeto terapêutico.
Entre os fatores citados como agravantes, o especialista chamou atenção para o uso abusivo de álcool e tabaco, substâncias legalizadas e socialmente aceitas, mas responsáveis por problemas de saúde, acidentes de trânsito, absenteísmo no trabalho e despesas médicas elevadas. Dados específicos não foram apresentados, porém Pretti ressaltou que as consequências emocionais dentro dos lares costumam ser profundas, incluindo rupturas conjugais e dificuldades de convivência entre pais e filhos.
Novo foco de preocupação: cigarros eletrônicos
O psicólogo também alertou para a rápida expansão do consumo de cigarros eletrônicos entre adolescentes. A oferta de sabores atrativos e a discreta emissão de odor estão entre os motivos que, na avaliação de Pretti, facilitam a adesão dos jovens. Ele informou que esses dispositivos contêm altas concentrações de nicotina, o que favorece o desenvolvimento de dependência de maneira silenciosa. A exposição precoce, acrescentou, pode aumentar a chance de migração para outras substâncias ou comportamentos de risco.
Risco genético e importância do “não” inicial
Embora experimentar uma substância nem sempre leve à dependência, fatores genéticos podem elevar a vulnerabilidade de determinadas pessoas, tornando o caminho para o vício mais curto. Pretti reforçou que a prevenção começa antes do primeiro contato e recomendou que famílias, escolas e serviços de saúde invistam em campanhas educativas que esclareçam consequências médicas, sociais e legais do uso de drogas.
Papel central da família na prevenção e na recuperação
De acordo com o especialista, o diálogo permanente entre pais, responsáveis e crianças é ferramenta decisiva na identificação precoce de sinais de alerta, como mudanças bruscas de humor, queda no rendimento escolar ou isolamento. Ao perceber indícios de consumo, a orientação é buscar ajuda profissional o quanto antes, evitando posturas punitivas que possam agravar o quadro.
Pretti sublinhou que a dependência química é reconhecida pela comunidade científica como doença crônica, exigindo acompanhamento multidisciplinar, adesão a tratamento e apoio constante. Apesar das dificuldades, ele assegurou que a recuperação é possível quando há combinação de vontade individual, suporte familiar e acesso a serviços especializados.
Programação do encontro
Além da exposição de Renan Pretti, o evento contará com a participação de Robson Moraes dos Santos, especialista no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). O convidado abordará aspectos legais de proteção a crianças e adolescentes, bem como fatores de vulnerabilidade que favorecem o uso de substâncias psicoativas nessa faixa etária.
A programação do encontro prevê momentos de debate aberto, em que participantes poderão apresentar dúvidas, relatar experiências e sugerir propostas de ação para fortalecer a cultura do cuidado. A entrada é gratuita e não há necessidade de inscrição prévia, segundo a organização.
O Comad espera que a iniciativa contribua para ampliar a rede local de prevenção, estimular a criação de programas educacionais continuados e reforçar a importância do acolhimento às pessoas em situação de dependência. A sede da OAB Dourados fica na Rua Onofre Pereira de Matos, nº 1712, região central da cidade.








